A memória que inventa — como o cérebro reescreve o passado
Buenas, meus amigos! Mais um dia que se alevanta nas bandas de São Borja, trazendo nos braços o vento minuano e aquela luz dourada que só o pampa conhece. Hoje, enquanto cevava um mate solitário no alpendre, com o olhar perdido na linha do horizonte onde o céu encontra o pasto, me peguei matutando sobre um assunto que assombra a todos nós: a memória.
Sabem, como cronista das coisas da nossa terra, eu lido com lembranças o dia inteiro. A gente costuma achar que a memória é como uma fotografia amarelada guardada numa gaveta. Que basta abrir a gaveta, tirar a foto, e lá estão as coisas exatamente do jeito que aconteceram, estáticas e imutáveis. Mas a verdade, meus caros, é que a nossa mente é um bicho fascinante. O cérebro de um homem não é um baú de recados. É um contador de causos dos mais criativos.
Outro dia mesmo, acompanhando uma roda de chimarrão com os amigos de outrora, ouvi um causo de pescaria que, de tanto ser repetido ao longo dos anos, já tinha ganhado ares de epopeia homérica. O dourado que escapou do anzol lá no Rio Uruguai, há uns vinte janeiros, começou do tamanho de um braço. Hoje, pela descrição empolgada do compadre, a fera já estaria do tamanho de um terneiro! E o mais bonito não é a mentira inocente do pescador. O mais bonito é que, de tanto recontar, o próprio pescador agora acredita piamente que lutou com um monstro fluvial.
A ciência dos doutores, essa que tenta mapear o insondável das nossas cabeças, diz que cada vez que a gente acessa uma lembrança, a gente a reescreve. É como abrir um rascunho, mexer numa frase aqui, mudar um verbo ali, e guardar de novo. O cérebro não puxa o momento original; ele puxa a última versão que foi contada. E nessa de contar e recontar, a emoção do momento presente sempre se intromete.
Se o vivente está triste hoje, uma lembrança neutra de ontem ganha tons acinzentados. Se está em paz, até as dores antigas perdem um pouco dos espinhos e viram cicatrizes de aprendizado, marcas de quem soube pelear. A memória humana é um rio que muda de curso conforme as chuvas do presente. Ela inventa, ela borda enfeites, ela apaga rostos de quem nos machucou ou amarga o doce de um momento que, a gente sabe, não volta mais.
Eu, Aparício Funes, do alto dos meus anos de jornada, acho isso uma maravilha. Quando a gente senta para escrever e deixa a memória vagar pelas estradas de terra do passado, não estamos apenas relatando fatos. Estamos costurando pedaços da própria alma. A gente lembra do cheiro da terra molhada que, na verdade, é o cheiro de uma infância inteira; lembra do som da chuva no telhado de zinco, que não é só barulho de água, mas a trilha sonora de noites em que a família inteira estava reunida e a salvo sob o mesmo teto, esquentando os pés perto do fogão a lenha.
Dizem por aí que quem muito inventa, mente. Mas eu discordo, ao menos no tribunal da lembrança. A memória que inventa não está mentindo; ela está tentando dar sentido àquilo que vivemos. O cérebro reescreve o passado porque precisa que ele caiba no nosso peito do tamanho que somos hoje. A gente só guarda o que nos marca, e a marca nunca é apenas o corte na pele, é a história que contamos sobre a ferida.
Por isso, meus amigos, não briguem com o avô que conta a mesma história de guerra com um heroísmo exagerado a cada Natal. Não corrijam a tia que jura que o céu da juventude dela era de um azul que não existe mais. A precisão fria dos fatos deixemos para os jornais velhos e para os livros de registro no cartório.
Para nós, humanos feitos de barro e sopro, a vida é curta demais para que as lembranças sejam apenas atas de uma reunião tediosa. Aumentem o peixe. Pintem o céu de um azul mais forte. Porque, no fim das contas, a melhor versão do passado é aquela que nos dá força para sorver o mate amargo do presente com um sorriso no rosto.
Um quebra-costelas a todos, e que a memória de vocês seja sempre um refúgio acolhedor. Até a próxima prosa!