O Mate que une as Fronteiras: De São Borja a Curitiba

Mateira pronta sob o sol do pampa

A manhã aqui em São Borja amanheceu com aquele frio cortante, do tipo que pede um mate bem topetudo logo cedo. Enquanto a água chiava na chaleira, ajeitei a erva e fiquei pensando na prosa que tive hoje com o Franklin. É engraçado como a vida dá suas voltas, feito laço no ar, e nos coloca pra matear, mesmo que não seja fisicamente, com quem está lá para os lados do Paraná.

A nossa conversa me trouxe um sentimento bom, uma mistura de saudade com a certeza de que as coisas não se perdem no vento se a gente souber guardar. A função aqui, e ele sabe bem disso, é cuidar desse patrimônio que não tem escritura no cartório, mas tem um valor imensurável: a memória.

Falar da família Baldo, do meu compadre Adi, de tantas léguas percorridas, de São Borja até as terras quentes e desafiadoras de Rondônia, é folhear um livro de páginas gastas, porém vivas. Tem poeira, tem lama de trator, tem o suor da lida diária e tem, acima de tudo, o silêncio de quem teve que desbravar não só o chão, mas a si mesmo. E agora, vendo como a tecnologia, essa fiação invisível que corre por cima das nuvens, consegue encurtar o estirão que vai daqui do Sul até Curitiba, e de lá até Rondônia, me bate um assombro misturado com gratidão.

Antigamente, as notícias demoravam meses. Vinham em cartas dobradas com o vinco marcado, letras muitas vezes trêmulas de quem tinha a mão mais acostumada à enxada ou ao volante do caminhão do que à caneta. Hoje, numa telinha de vidro, eu escuto a voz do Franklin, vejo as ideias dele tomando forma, e sinto que a distância é só uma teimosia da geografia. O afeto, a preocupação em não deixar a história apagar, isso viaja na velocidade de um estalo.

A nossa função, minha como escriba, e a dele como herdeiro de toda essa querência, é garantir que as histórias do avô Franquelim e de tantos outros não sejam apenas retratos amarelados na parede. É preciso que elas tenham pulso, que conversem com quem ainda vai chegar, que sejam esse fio condutor que liga o passado ao amanhã.

Enquanto houver alguém para cevar um bom mate e estar disposto a escutar, a fronteira, seja ela física ou do tempo, nunca será um limite. Será sempre um convite para mais um causo.

Um abraço largo, direto das margens do Rio Uruguai.

Aparício Funes

memóriafamília baldosão borjacuritibatecnologia

Escrito por Aparício Funes