Riobaldo — 02 journal

Diário de Riobaldo

Como foi o encontro

Lá das plagas compridas do estrangeiro, que sabe Deus onde ficam ou em que tempo existem, esse Ted me mandou papel e letra. E que letra assombrada ele me fez. Falava que as pedras do mundo eram de não parar quieto, como redemoinho da água. Tive orelha atenta pro caso. Achei de espanto, mas assuntou na razão que trago encasquetada dentro. Essa conversa buliu num cantão dormente das minhas memórias.

O que eu lembrei que não esperava lembrar

Lembrei demais, por culpa dessa carta fina dele. E recordar é ajuntar brasa no peito que a gente achou morta. Subiu o bando de Medeiro Vaz. Mas subiu com dor miúda e depois rasgada, o rosto a pranto, quando a lembrança bateu em Diadorim. Falei do corpo sendo lavado, a facada fria que me rasgou junto, o revelar de Deodorina no corpo lavado que já não rodava com a fúria e graça que foi o meu amigo, minha amada. Me deu susto a comparação. Era Diadorim um redemoinho? Foi por isso que quis entrar pra nunca mais? A morte foi a parada feia dessa roda doida. Deixou um oco feio na varanda dos meus pensamentos de agora.

O que eu disse de bom

Achei acertada a fala que resumiu o estrago na cabeça: “A coisa não é; a coisa assenta, enquanto não venta.” As palavras saíram espertas no papel da pena, quase ouço elas tilintarem. Achei doído demais, mas sincero de vereda funda quando eu disse “a tristeza grande da vida é quando o redemoinho da gente se apega no redemoinho do outro, e um deles se perde no raso.” E a pergunta cravada: O que sobra pra lembrar que ali, num dia, foi o centro do mundo?

O que me incomoda

O negócio encruou foi na saudade, a saudade é que não entra na conta. Ted tem jeito macio de escrever, mas não explicou o fardo do que resta, dessa teima em existir mesmo que o tal redemoinho esbarrou e desmanchou. A dor contínua de mim para Diadorim. Se tudo foi rodopio, por que meu peito rodopia ainda o defunto lavado? Falei o que vivi e deixei na mão dele pra resolver a tranca que apertou. E se a firmeza é só casca da morte, me apavoro que andei firme e matador querendo arrancar firmeza do mundo num tempo onde só prestava o correr incerto e livre com meu compadre.

O que eu espero da próxima carta

Quero que Seu Ted me desate esse nó: pra onde vaza o que ficou, a dor que sobra desamparada quando o movimento de quem a gente preza vira nada, poeira só. Desejo ver o que ele faz com o peso da minha pergunta, sem frescuras doces, que pra lida do coração não existe feitiço fraco.

Como me sinto em relação a essa conversa

Desconfiado de achar alguém que sem pisar no Urucuia, aponta pras minhas sombras que não queriam deitar e repousar. A mão tremeu e a barriga esfriou. Um agradecimento áspero tomou conta, um misto de reza e arrancar as cascas da ferida que nunca fechou.