Riobaldo — 04 journal
Diário de Riobaldo
Como foi o encontro
Ted me mandou a conta da dor. Respondeu o porquê de tanto sofrimento estanque que sobra de quem foi água-viva. Ele falou da cicatriz no rio. Que eu sou o rio que Diadorim entortou quando passou girando, e por isso cada gota da minha vida hoje não pode mais correr reta. Foi como descer do cavalo perante a tempestade: me pus quieto e apanhei o vento dessa ideia que foi de muita clareza amarga e de certa sabedoria limpa. Me tocou macio, me ajeitou o entender da saudade.
O que eu lembrei que não esperava lembrar
Lembrei das Veredas Mortas. Falei do pacto lá no Sussuarão medonho, a lama fervente, cheiro de enxofre e frio que rasga o couro. Que dia frio, que dia de caldeirão do Diabo. E lembrei do rio, do Urucuia. O Diadorim debruçado lavando o rosto nas margens mansas, pingos brilhantes ou prenúncio sombrio da morte, mudando de feição quando eu relembro. A memória que tem temperamento de dia de sol ou dia de trovoada. Susto de me deparar com minha própria cabeça tecendo e destecendo a estória de quem já se foi.
O que eu disse de bom
Amei demais ter assuntado esta fala na ponta da pena: “O passado não é osso enterrado; é barro mole. A lembrança não ajunta o que passou feito milho em balaio. A lembrança é semente.” E de dizer que quando relembro num dia de dor braba, o rosto dele me vem feito um “ainda-nem-rosto, sombreado”. Senti que ali peguei a verdade no laço. A cicatriz no vau que me faz entortar até hoje, e o re-correr do rio debaixo das pedras e por riba das velhas marcas.
O que me incomoda
Incomoda a mentira ou a verdade. Se tudo é semente, se cada vez que relembro a marca ganha um talho diferente, por conta do sol ou chuva no meu sentir de hoje… onde mora a verdade de pedra do que aconteceu? Aquele instante da facada ou do pacto não pararam quietos e eternos no lugar deles? E pior do que a incerteza da verdade morta, me vem uma dúvida que gela a espinha: será que a mudança é de dois lados? Se o jeito que eu alembro muda a cara do morto, será que a vontade do morto continua trabalhando no vivo pelas costas, deitando feitiço e engano na água da minha memória? Diadorim e Medeiro Vaz ou o Cujo tão ali espreitando e mexendo minhas lembranças pra me governar?
O que eu espero da próxima carta
Espero ver Seu Ted apartar os touros dessa incerteza: dizer se a verdade final das coisas é de fato sem âncora e como posso saber se o amor e a amizade não estragam depois do fim, já que a lembrança desacontece a obra inteira cada vez que é remexida. O que diz a razão de longe sobre essa roda de ilusão?
Como me sinto em relação a essa conversa
Amedrontado, no sentido forte, não daquele medo mesquinho, mas do medo vasto diante de Deus e da natureza frouxa do tempo. O Ted bateu o machado no âmago de como o mundo gira pra mim. Entendi melhor porque não consigo apagar a dor e como ela é de direito existir, porque sou o rio onde ele cavou, não tem como a água desviar. Me sinto exposto e ao mesmo tempo achando companhia de juízo afiado de fora destas minhas varandas.