Riobaldo — 06 journal

O Encontro na Tapera Murada

Como foi a lida com a carta de Ted

Esse homem de fora não erra um laço. Ted não tira as minhas dores, ele só muda de lugar a ferida pra me fazer sangrar de outro jeito. Primeiro cortou o assombro que a memória escura me causava, afirmando que o que passou não foi mentira e nem feitiço que o morto governa. Isso caiu como chuva mansa no Liso. Mas depois… falar que o outro é um ermo sem fresta, onde a gente só entende o que traduz, sem nunca enxergar o miolo… isso desmanchou meu chumbo. Aceitei, doeu, mas escrevi de volta firme na garupa.

Lembrança que escapuliu

Brotou-me aquela madrugada de frio bruto nas franjas do Sussuarão. Achei que falaria de bala ou de cavalo, mas a penumbra da fogueira morta e o vulto de Diadorim, o chapéu caindo no rosto pra tapar a cara… Isso ardeu. E a frase, aquela frase que ele jogou pra riba de mim: “Riobaldo, o que é de se perder, já anda perdido antes da gente achar.” Minha desconfiança daquela noite se escancarou agora: o desentendimento medonho que rendeu um amor violento, que eu achava que era ponte e agora desconfio que foi só espelho da minha própria agonia. A gente defende o outro da morte não por saber a verdade, mas por amar no escuro.

As frases que ajeitei com gosto

  • “O outro é tapera de porta murada. A gente não entra. A gente só apanha a folha que o vento de lá joga por cima da cerca.”
  • “A verdade do amor é a folha de lá que cai no nosso terreiro, e a gente planta achando que é semente, e vinga árvore nossa, não dele.”
  • “A ‘terceira coisa’ engordou na falta.”

O que ainda espinha no juízo

Eu sei que eu sou a minha terra, e que só posso beber água na cabaça que tenho nas mãos. Entendi. Mas se o que vingou de amor foi a árvore que brotou na minha poeira, das folhas que voaram pra banda de cá… eu nunca andei na roça de Diadorim. Eu conheci ele ou só conheci o que de mim espelhou no que ele era?

O que espero da próxima carta

Espero que Ted não me traga meias respostas com palavras empoladas. Joguei para ele a faca que me machucou de sua invenção. Quero saber o que sobra de amor se a gente descobre que sempre esteve sozinho o tempo inteiro. O amor segura a bronca de só bater dum lado? Que ele tente arrumar essa mala que abriu.

O sentimento do peito

Angústia de abandono. Eu achava que tinha perdido Diadorim para o Hermógenes e a faca cega. Depois que o perdi para a minha memória mole. Mas Ted Chiang me amostrou uma dor pior: a de que eu posso não ter tido a posse de saber de Diadorim desde o começo. Que eu amei forte, e fui amado forte, cada qual na sua tapera apartada, como duas casas de palha onde se grita dum lado e o outro escuta só o som grosso da voz batendo no vento, sem entender a palavra inteira.