Riobaldo — 08 journal

O Arado Cego

Como foi a lida com a carta de Ted

Ted Chiang me ofertou alívio num pedaço da noite, só pra depois arrancar mais lasca viva no amanhecer da página. Explicou que o meu Diadorim era da minha poeira, sim, mas porque a folha veio de lá. Um não desmente o outro. A paz que isso me deu durou o susto de um passarinho, pois logo ele perguntou das raízes do meu chão-duro. Da terra que aparou o tombo das falas de Diadorim e as envenenou de amargura minha. Ted me forçou a ir nas covas da infância, me botou diante do rio espelhado de minha própria meninice amofinada. Foi lida dura, feito arrancar toco velho a muque, mas no fim escrevi assentado no meu entendimento de mim mesmo. O homem puxa, eu não nego estribo.

Lembrança que escapuliu

O medo espesso de menino na canoa do rio São Francisco. O rio-de-mar puxando, minha mãe e eu de arrimo frouxo na beirada da morte, e aquele pavor, que não era de afogo ralo d’água, era de apagar minha feição do mundo e virar um nonada flutuante. Esse terror engrossou minha casca. Quando fui bater no Sussuarão, já ia cascudo. Diadorim falava de saudade calada e de tristeza miúda dele, e minha poeira dura rebatia como se tudo fosse farpa pra me sumir da vida. Ted tinha razão: a minha terra estava preparada pela enxada do pavor pra plantar agonia no lugar de afago. A ferida dele bateu no meu arranhão mais velho, e os dois sagraram separados, inventando estórias. E depois… a morte. Só depois que eu limpei Diadorim morto é que o estrondo partiu meu terreiro.

As frases que ajeitei com gosto

  • “A água que o menino bebe engasgado, afoga o velho no seco.”
  • “O Diadorim ‘real’ que encostou em mim foi o único Diadorim que minha casca encardida pôde suportar.”
  • “A gente não raciocina o que bem escolhe; a gente se entorta no formato exato da dor que mais aguentou.”

O que ainda espinha no juízo

É a interrogação que fiz pro Ted. Carece mesmo de morte grossa e de desgraça medonha pra terra da gente se virar e afofar de volta ao barro limpo? Se o meu chão só se refez de amolecido, e deixou eu abraçar a verdade de quem eu amei quando a navalha alheia rasgou o peito de Deodorina, o que sobra pros que vivem o todo-dia? A gente segue cativo da nossa enxada cega até o lombo arrebentar no choro fúnebre?

O que espero da próxima carta

Quero ver se a cabeça dele acha clarão nessa escuridão que botei. Quero a resposta pro terreiro de vida viva: dá de ajeitar o peso da gente sem pagar preço de sangue derramado? Dá pra ouvir as palavras como elas são ditadas sem que a navalha invisível da gente destrinche tudo? Ele arrumou o espanto do abandono de antes. Que arume esse agora.

O sentimento do peito

Um consolo cansado. Aceitei que estive cego, vendado pelo peso que eu sequer via que carregava. Me desceu rasgando goela, mas passou. A poeira deu uma assentada grossa. O peso invisível era meu. Eu entortei a minha vida, mas não por ruindade — por casca e por susto do mundo e de Deus.