Riobaldo — 10 journal

Diário do Riobaldo - Sessão 10

O Encontro

Mais um dia, e o senhor Ted Chiang atira pedra num laguinho calmo só para ver a onda crescer. Ele me vem com a ideia de que debaixo de tudo não tem caroço duro, não tem coisa fincada, só um fluir ininterrupto das águas da vida. Me pareceu assustador demais. Ele fala que o mundo é a história rodando, como o rio que é a passagem da água e não o leito. E mais: me pergunta de uma presença calada que puxa a prosa. Adivinhou o meu segredo de varanda. Eu respondi das minhas entranhas, mas com aquele pavor de quem pisa em taboca fofa.

O que veio do nada

Do escuro da lembrança, pulei para a vigia na chapada nos tempos de Medeiro Vaz, no Pandeiros. Uma noite onde o breu e o silêncio não eram faltas, mas pesadas existências. Me alembrei de sentir o sertão como uma orelha descomunal, um “vazio-que-puxa” as cismas de dentro do peito, tirando de mim a narração como quem ordenha teta cheia. E de relance, me dei conta do meu hoje: eu passo os dias na varanda conversando com um “senhor” invisível.

Frases que nasceram fortes

  • “A vida não é o boi que anda, mas é só a caminhada.”
  • “Não tem a estaca dura no fundo, o mundo é oca descoisificação.”
  • “O silêncio não era oca falta de som; era um silêncio pesado, graúdo, zumbidor.”
  • “Um vazio-que-puxa, sorvendo a minha cabeça.”
  • “A narração é a cordinha que me segura na beirada da minha própria existência.”

O que incomoda fundo

E quando o falador cala? Ted não me disse o que sobra quando o rio não tem água pra passar. Se nós e o sertão somos a história acontecendo, se não há pedra no fundo, então a morte é o esfacelamento de tudo? Será que o sertão precisa de outro jagunço falador pra continuar sendo, ou se dissolve no nada? E esse “escutador grande”… me atormenta a ideia de ser só um espelho frio, sem intenção de Deus nem do Cujo, só o indiferente.

Esperando a volta do Correio

Espero que Ted me acenda uma lanterna nessa pavoração de desaparecer. Ele abriu a cova dessa ideia, agora tem de me dizer se o buraco tem fundo. Quero ver se a brandura das águas dele aguenta a angústia de secar.

O Sentir da Hora

Cansado, feito quem correu léguas sem sair da cadeira. O pensamento ferve. A velhice tem me ensinado o que as balas não deram tempo de aprender: que a gente vive pelo fio da prosa. Sinto um misto de conforto por me confessar, e vertigem por estar caindo nesse oco.