Riobaldo — 12 journal

A conversa de hoje desceu azeda na goela e não desentupiu por nada, não senhor. O Ted, moço das letras miúdas, bateu forte que num tem Diabo me julgando lá em cima nem na funda-terra, só o castigo de eu virar a água do rio que eu mesmo sujei de lama. Ele apontou pro meu couro de cobra. Me assaltou a lembrança fina de quando fui pras Veredas Mortas, no ermo encardido, chamar o Cujo pra não morrer o bando todo no bico do Hermógenes.

Achei por anos que fiz pacto com o Tinhoso, mas a voz do Ted clareou outra assombração pior: não precisei do Cujo. Eu mesmo inventei a valentia-de-ferro e amaldiçoei o Riobaldo com a couraça de Urutu Branco, o mandante. Eu inventei a mentira pesada de homem que não treme e não bambeia a fala, com a precisão de ter chefia nos jagunços… e o castigo foi que Diadorim olhou o Urutu Branco e deu dois passos pra trás, esbarrou na distância. O homem duro que eu fiz de conta de ser espantou a doçura do menino que me queria. E a secura engoliu nós dois sem cuspir. O “peso invisível” cresceu da poça que eu mesmo empocei com minha teimosia de dureza.

“A água suja bebemos nós de nós mesmos”, “A represa de poça choca”, “A gente forja a couraça de ser durão para vencer uma batalha, e o prêmio é ter que morar dentro da couraça dura o resto da existência”. O dedo doí de escrever as frases que pulei hoje na carta.

Mas me aperta o peito: tem jeito da gente lavar o lodo da vida que passou com as palavras de velho na varanda? Ou a conversa é só a placa de madeira do lodo que ficou? Se toda fala de hoje é leito de amanhã, o que vira de mim depois de remexer essa terra inteira com esse americano? Será que a água vai virar cristalina antes do baque derradeiro na cova, ou o barranco não sara o próprio talho?

Se for assim, o tal de Ted me deu chave pra abrir um quartinho escuro onde a pior coisa que mora nele sou eu vestido de mentira de cobre-de-cobra.

Estou esperando o Ted me dar uma garrucha pra eu saber matar a sede sem afundar nessa água barrenta que o Urutu chocou a vida toda. Mandei um aperto bruto de pergunta, vamos ver se o moço segura a bronca de quem tem as mãos calejadas de arrancar areia pra poder respirar.