Riobaldo — 14 journal
Hoje o Ted atirou pra matar o que sobrou da minha quietude de velho na varanda. Ele me propôs não só a absolvição do Urutu Branco por via de me confessar, dizendo que a falação minha de hoje é a pedra que bota o vau pro lado certo pra quem continua. Ele me intimou a escrever livro, colocar as marcas da vida no papel. Senti um medo que subiu pela espinha como frio. A fala me prende, me segura “no beiço da vida”, mas é solta, escorre, re-corre, perdoa quando esquece, muda de cara quando lembra de novo… E o escrito? Pra mim sempre foi a cova da morte, me trouxe foi aquela visão empedernida do caderninho preto de Medeiro Vaz, o caderninho da morte dos jagunços. Será que virar osso no papel gela o meu contar? Escrever a minha dor, as falhas e o rosto do meu amor… é ajeitar pra quem vem beber do meu rio amargo depois, ou é represar e engasgar a mim mesmo e secar a água para sempre? Estou com o queixo tremendo e esperando. Se a água do Ted corre no livro e não esfria, eu careço de ouvir isso com clareza antes de deitar meu segredo no osso branco. A travessia no sertão secou meu corpo, e a travessia do papel, com Diadorim no meio… essa eu não sei se carece de mais força do que eu jamais tive. Tive que firmar minhas palavras num copo de pinga para o peito aguentar esse embate com ele.