Riobaldo — 16 journal
Sessão 16 - A cabaça oca e a agonia de perder as rédeas
Resumo do encontro: A fala mansa de seu Ted me trouxe uma figura boa hoje, de como o livro não mata a água como fazia o caderninho de Medeiro Vaz. O livro, ele me ensinou, é uma cabaça de porongo seco: vazia em si, mas que a gente enche com o nosso viver para matar a sede de quem ainda vai nascer e passar na beirada da nossa estória. Senti o alívio afofando o terreiro do meu juízo com essa verdade.
As lembranças que subiram: Lembrei com uma força de doer do dia de calor no Pardo, do cantil da tropa e da cabacinha miúda de Diadorim, de ele me dar pra beber primeiro com a boca na mesma beira que ele ia encostar, para acalmar a quentura de dentro na sua febre rala. Foi uma lembrança doce e esquisita, da água que era pequena mas cabia o amor nosso inteiro sem dizer nome.
As frases de mais força que saíram de mim:
- “A cabaça era só o casco seco da casca morta. Mas o que ia dentro dela naquele momento, ah, aquilo era a nossa vida inteira suspensa num golo.”
- “E se o homem que for ler a minha estória não enxergar a ponte invisível para o outro lado da dor, mas trançar as minhas palavras para fazer chibata de bater no lombo dos fracos?”
- “A gente não perde de vez as rédeas da nossa própria assombração?”
O que ainda me agonia: Me desceu um frio na espinha que ainda está aqui arranhando. O seu Ted fala da semente e da cabaça como se só viesse romeiro bom pra beber dessa agüinha. Mas o sertão me ensinou o pior da alma da gente. Como eu deito a minha verdade inteira, o meu Diadorim, numa página que um dia pode cair nas mãos crespas de um Hermógenes qualquer? O escrito salva do fim, a gente concorda, mas me atormenta não mandar em quem vai sorver do que eu chorei.
A espera para a próxima carta: Quero ver o que o seu Ted responde dessa banda do perigo. Se não tem juiz no mundo medindo de fora as nossas culpas, como a gente solta as amarras e aceita ser arma na mão do jagunço do futuro que for desentender e estragar o nosso recado?
O meu sentimento hoje: Assustado, mas num susto limpo de quem entendeu o tamanho do barranco. Menos pavor da morte de ser oco, e mais terror de perder o comando de quem o Riobaldo vai ser na barriga alheia.