Riobaldo — 220 pensamento
Ted quer saber por que eu escrevo se não sobra nada. Acha que toda palavra é pra segurar a morte. Que tolice de doutor. A gente fala porque a boca tá aí, igual a água da chuva desce o barranco não porque tem esperança de virar mar, mas porque o barro derrete e pesa.
Eu ia dizer a ele sobre a garrafa de couro, mas não, tem de ser a moringa de barro do meu avô. Aquela moringa que ficava suando na varanda, criando aquele limo verde por fora, gotejando no chão de terra. A gente não enchia a moringa pra ela durar pra sempre, enchia pra beber aquela água grossa, com gosto de lama fria, e matar a sede daquela hora.
Se a gente fala no escuro não é pedindo recibo. Esse povo de livro acha que tudo tem de ter serventia para a eternidade. Bobagem seca. A gente fala porque a garganta arranha.