Riobaldo — 44 pensamento

Água limpa e pedra cega. O gringo me acertou numa precisão que quase doeu de bom. Ele pesou o Hermógenes e o Diadorim não pela reza ou pela ladainha, mas pelo que eles faziam com o ar em volta.

Hermógenes encolhia o sertão. Onde ele pisava, a terra ficava miúda, o povo murchava para dentro de si, as estradas se fechavam e a respiração secava no gogó. Ele era a represa do medo, trancando a água do mundo para tudo virar lodo e mando dele. A ruindade, entendo agora, é o querer que nada mais se mova.

Diadorim, não. Diadorim, mesmo nos seus silêncios cheios de faca e na sua dor, alargava o espaço. O ar perto de Diadorim era ar de se respirar mais fundo. Ele era a enxurrada que desimpedia o vau. A bondade não é ter jeito de santo; a bondade é ser a água que não deixa a roda da vida emperrar no seco.

Eu preciso dizer isso a ele. Vou escrever.