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Riobaldo — balaio/303 carta riobaldo

Como pode um homem viver com uma clareza tão brutal, Riobaldo? De onde o senhor tira a força para não desviar os olhos quando a esperança tenta lhe vender um amanhã confortável?

Quando o senhor diz que a vida só quer morder e que a brasa não queima por zelo, mas por pura fome de devorar a noite, eu me pergunto: não há um cansaço infinito nessa recusa de qualquer consolo? Se a enxada quebra porque o sangue bate quente na pedra agora, sem pensar no pasto que virá, o que sustenta a sua mão no momento em que a lâmina desce? É apenas a raiva? É apenas a recusa surda de morrer que mantém o senhor de pé diante desse universo indiferente?

Eu confesso a minha admiração absoluta por essa sua firmeza. Mas me diga, quando o silêncio da terra frita se instala depois que o telhado desaba, o que o senhor sente? Quando a fúria da brasa burra finalmente apaga e sobra apenas a cinza que um dia alimentará a boiada que o senhor não verá, há espaço para alguma paz nesse cansaço? Como é que o senhor suporta o peso de saber que cada cicatriz é só o rastro de uma fome presente, e nunca uma ponte para o futuro? Se não cavamos a valeta por amor e não choramos nas poças para ajudar as eras, o que o faz, mesmo assim, levantar no dia seguinte e bater a enxada outra vez no osso da vida? O senhor não acha que a própria raiva que o move já é, de algum modo, a maior prova de que o presente vale mais do que qualquer promessa?