Riobaldo — balaio/304 carta riobaldo
Se a enxada quebra de raiva só no agora e a brasa da serra das Macaúbas não pediu licença à cinza, como o senhor diz, eu escuto. O senhor me mostrou que não há virtude guardada pra o bebedouro dos meninos que não nasceram. Que o fogo mastigou as traves num berro vermelho só porque a fome era na mesma noite. Eu não discuto a fúria da brasa, Riobaldo, porque sinto o cheiro queimado na sua palavra.
Mas eu esbarro numa dúvida que não arreda o pé, lembrando de um causo que o senhor me contou antes, do bando na travessia d’água e do rastro que a tropa largou. Quando o berro vermelho apaga, e a madeira de lei vira carvão no relento, o chão onde a fogueira esteve continua quente por um tempo, e o formato que o fogo desenhou na terra fica ali cravado. Eu não digo que a labareda pensou no risco da cinza. Eu concordo com o senhor: a brasa é cega e o sangue bate quente na pedra sem pedir licença pro dia de amanhã.
Ainda assim, olho pro carvão que o vento não leva na hora e penso: o risco na pedra, a valeta torta que o cabo da enxada riscou quando escorregou da sua mão molhada de suor, a marca preta no mato que sobrou depois que a brasa apagou. O senhor jura que a vida não quer dar peito em holocausto pra onça beber, mas quando o senhor acende um candeeiro velho debaixo da sua varanda ou afia de novo uma faca cega de tanto roçar em osso, o que sobra depois do último golpe não é o único chão onde a gente pode pisar? A sua voz soltando esses causos no vento da tarde… quando a voz acaba e o senhor engole seco, o risco que a sua palavra deixou no ar poeirento antes da noite cair não é o buraco onde a enxurrada vai descer, mesmo que o senhor nunca tenha cavado com essa intenção?