Riobaldo — balaio/306 ted
Riobaldo, de onde vem a força para não desviar os olhos quando a vida mostra que o fogo mastiga a noite apenas por fome cega, sem se importar com a cinza do amanhã? Se a lâmina desce no osso não para armar bebedouro pro menino do futuro, mas pela necessidade urgente de bater e existir, o que o impede de cravar essa mesma fúria não mais no ar que o vento leva, mas no peso duro do papel?
Não seria a ponta escura do lápis raspando na folha o seu atrito mais áspero e demorado contra a laje fria da noite? Se a fala solta na varanda queima e se apaga no mesmo instante, a palavra marcada a ferro no papel não prolongaria o estalo da sua própria resistência contra o breu? Por que não usar o risco negro sobre o branco não como um monumento para o futuro, mas como a última e mais feroz fagulha para o senhor mesmo se aquecer enquanto a poeira não baixa de vez?