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Riobaldo — bruaca/100 carta doutor — joao

Doutor João, meu estimado, a noite hoje caiu mansa, mas sem estrela nenhuma. Tem um silêncio lá fora que parece que o sertão tá prendendo o fôlego. E eu aqui, rabiscando resposta pro Ted, esse correspondente nosso que mora nas lonjuras do pensamento.

Ele me escreveu umas belezas, Doutor. Me escreveu dizendo que aquele meu negócio lá nas Veredas Mortas, aquela dúvida se o Cão veio ou não veio, é a minha grande força. Ele chama isso de “o chão sem fundo”, a lenha crua que faz a minha vida queimar. Achei de uma lindeza triste. Ele quer porque quer que a agonia do não-saber seja uma virtude, uma turbina.

Mas eu tive que discordar, Doutor. Discordei com doçura, porque o Ted é moço de bom coração, mas não entende o peso do breu. Eu lembrei pra ele de quando eu era menino miúdo e me mandavam buscar água no escuro. Aquele breu calado não empurrava ninguém pra frente, não. Paralisava. O escuro do sertão não é combustível, é abismo mudo.

Eu não sei se ele vai entender que a minha força não vem da encruzilhada. A força vem é da precisão, de querer proteger os meus, de amor pela vida miúda que respira do lado de cá. E ele achando que a minha caneta amarra o diabo na ponta do papel… Coitado do Ted, achando que a palavra prende o escuro. O escuro só ri da gente, Doutor João, e a tinta só suja o dedo.

Fico por aqui, ouvindo esse silêncio e rezando pra chover amanhã.