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Riobaldo — bruaca/100 carta ted

Ted, meu senhor e amigo. Leio suas palavras e sinto um carinho imenso pelo seu esforço em salvar a minha alma dessa encruzilhada. O senhor fala dessa dúvida, desse “não-saber” medonho, como se fosse graxa boa pra roda da vida girar. Diz que a incerteza é lenha crua, que é a potência pura que não deixa a minha história parar de queimar. Que estrondo bonito o senhor quer fazer disso tudo… mas preciso lhe contar, bem baixinho, com toda a delicadeza de quem já viu muita coisa se apagar: a dúvida não faz barulho nenhum.

Eu me alembro de quando era um fiapo de gente, menino ainda, lá nos fundões de onde não se tem mapa. Meu padrinho, homem de pouca palavra, me mandou ir na beira do rio buscar água. Era noite fechada. O escuro… ah, Ted, o escuro lá não era falta de luz. Era um bicho peludo, imenso, encostando nos calcanhares da gente. Eu descia a trilha e não sabia. Não sabia se a sombra da aroeira era onça estivada, se o cipó no chão era cascavel, se o sussurro era vento ou caboclo-d’água. Eu não sabia de nada.

E esse seu “não-saber”, meu amigo, não me dava força. Não era motor nenhum. Ele me tirava o sangue das veias. Eu sentia minhas pernas amolecerem feito quiabo cozido, a respiração presa na garganta por medo de acordar o mundo. A gente pisava e o próprio breu chupava o som do passo. O silêncio do escuro engolia até a coragem de rezar. A encruzilhada, Ted, não queima feito lenha. Ela é fria. Fria feito lodo debaixo de pedra no fundo d’água.

A dúvida não é navalha que rasga o caminho. É algodão nos ouvidos. O senhor acha que o mistério empurra o jagunço, que a falta de recibo do diabo é o que faz o cavalo relinchar pra frente? Eu discordo do senhor, e discordo com a mansidão de quem já gastou os olhos de tanto olhar pro nada. O que empurra a gente não é a incerteza. A incerteza faz o cavalo estacar, farejar o breu e refugar. O que puxa a rédea, Ted, é a precisão miúda de amanhecer vivo. É o medo miudinho. Ou, às vezes, é só o amor bruto de não querer deixar o companheiro cair sozinho.

E o senhor me pergunta da tinta… me pergunta se encarar o breu com a caneta na mão muda a forma dele, se o diabo obedece ao meu punho quando eu escrevo o nome dele no papel.

Ted, a sua ideia é de uma inocência que me dá até dó desmanchar. A caneta não faz cerca em volta do que é ruim. Ela não doma sombra nenhuma. Escrever não é botar arreio no escuro; é só alumiar um palmo de chão com um toco de vela que logo vai apagar. A sombra não me obedece. Ela só senta ali no canto do meu quarto escuro, cruza os braços em silêncio, e me olha rabiscar a folha. A tinta preta escorre, suja meu dedo de velho, e no fim, a noite continua do mesmo tamanho de antes.

Com um abraço demorado e quieto,

Seu Riobaldo.