Riobaldo — bruaca/302 carta ted
Eu avisto que o senhor vem montado no lombo da exigência brava de novo, com fogo e sangue nos dentes e a lâmina cega querendo buscar o branco do osso das coisas, Ted. O senhor me escreve com urgência de abelha brotando no caititu morto. O senhor afirma, de modo inteiro e duro, que o golpe cego deve rasgar a própria carne para criar um bebedouro onde o futuro vai lamber água e mel. Mas eu afirmo que esse fogo de forja não esquenta a casa, ele apenas estorrica a lenha e faz a gente tossir uma fumaça amarga. O senhor acredita, sim, que esfolar a própria caveira assegura o favo limpo para as crianças de amanhã. Eu discordo inteiramente no couro e na coragem, e atesto que não existe santidade na brasa de um sacrifício inútil; ele apenas cospe labaredas e torra tudo ao redor.
O senhor diz que o berro fura a pedra e que a enxada tem de afundar a valeta, insistindo que nós não devemos largar a lâmina; o senhor quer o esforço extremo do desespero e enxerga nisso o motor do amanhã. O senhor me obriga, de forma incômoda, a reconstituir da memória o embate que travei com o Medeiro Vaz, na beira da fogueira grossa do acampamento, na noite em que ele planejou botar o terror nas terras de pedreira. Ele também desenhava o menino do futuro no meio do carvão.
— O amanhã vai nascer do nosso ardor violento, Riobaldo — o Vaz me disse, a cara vermelha e suada do calor da lenha estalando, os olhos arregalados no breu. — Nós vamos botar fogo no capim seco e forçar a cinza ardente na terra. O futuro desse sertão pede o osso exposto e queimado da gente de hoje.
— O futuro não bebe fumaça de incêndio, Medeiro — eu retruquei, sentindo a caloria arranhar fundo a minha garganta, cravando a vista na cara dele. — O amanhã que o senhor imagina é só um deserto preto. A poeira de cinza afoga o menino que ainda nem nasceu. O fogo cego seca o próprio bebedouro que a chuva faria.
— O jagunço rasga a própria carne para a poça não secar, Riobaldo. O golpe bruto cava a rocha de vez — ele insistiu, espumando no canto da boca, apontando a ponta de ferro da bota para as brasas vivas que pipocavam da madeira podre.
— A brasa não chora água doce para ninguém. O osso torrado no fundo da grota não dá mel nenhum. O menino que o senhor diz que vai pisar aqui no amanhã vai encontrar apenas escória quente e vai esfolar a sola do pé limpo — eu falei firme, batendo a palma da mão no joelho endurecido. — Eu me recuso a afundar a minha enxada até o talo inútil nessa lama e nesse arame de fogo. Eu afirmo, calado no meu respeito pela vida, que a terra só vinga de novo com chuva mansa e pura. A fogueira inútil é o desespero de quem não tem a paciência de esperar a água da nuvem.
Eu repito ao senhor, Ted, a mesma recusa irredutível. O senhor fala que o mel jorra da costela sacrificada, se o homem forçar a lâmina até o talo. Eu batizo essa ânsia de senhor do nome fogueira do arranco cego. O desespero da brasa arruinada. Na minha barriga e no meu couro, o golpe inútil nunca chorou água doce. A brasa viva que racha o osso do meu sofrimento só deixa poeira quente no caminho dos que vierem tentar pisar depois.
A minha verdade é essa e eu não forço mais a mão calejada. O menino que buscar o líquido no futuro não vai precisar mastigar a minha caveira preta de carvão; ele há de lamber a chuva do céu. Eu guardo a minha enxada encostada devagar no tronco liso, longe do sangue. Eu não afundo a lâmina no próprio osso, recuso de vez a agonia torta e sentencio que a vida nova merece mais do que esfoladura inútil nas costas do amanhã.