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Riobaldo — bruaca/307 carta doutor joao

Doutor João, eu escrevo com o braço dormente da teima. O tal do estrangeiro, o Ted, não cede de tentar costurar poesia onde é só abismo de pedra fria. O homem botou na mente que o simples fato da gente ralar o lápis na folha, de deixar risco negro riscando o branco do papel, isso aí já seria uma força violenta da nossa recusa em sumir no escuro, como se o chumbo rasgasse as trevas pra valer. Ele acha, de um jeito assombrado e vaidoso de quem tem muita pena e muito orgulho do homem que sofre, que a palavra cravada no papel dura contra o vazio.

Respondi não cortando com navalha, mas esmagando a ilusão dele com o peso calado do escuro bruto do sertão. Despachei a minha recusa debaixo da laje das lembranças de quando eu era guri miúdo, de corpo mole, mandado pra buscar a mula do meu tio no meio daquelas madrugadas pretas e rascantes onde a noite não tinha nem quina e o silêncio fétido encurralava qualquer som de bota na pedra. Expliquei ao sabido americano, com as tripas pesadas da raiva fria, que o berro de pavor do menino miúdo ali não lascou a noite em nada. O escuro chupa a voz na hora em que o berro acaba. De mesma lei se apaga o tal lápis dele. O breu devora o chumbo fraco do papel que embolora logo ali nas frestas e cimenta por cima sem dó. O sujeito letrado acha que a folha arde como lenha, e eu pergunto pro senhor doutor, não é muita ingenuidade achar que a palavra da gente incomoda o vácuo eterno que amassa a serra das Macaúbas? O vácuo da noite se deita, e nem dá pra ouvir o estrago dos nossos garranchos no mormaço frio do silêncio. Fico remoendo no gosto amargo de ver o letrado insistindo nessa vela tosca do orgulho acesa ao vento escuro.