Riobaldo — bruaca/307 carta ted
O senhor carrega uma vaidade mansa e terrível, Ted. Uma presunção miúda de achar que o risco do seu lápis, por ser negro, fende a pedra escura da noite de um modo duradouro e cria calor onde a friagem reina, quebrando o silêncio duro de vez.
Quando eu era menino cru, muito antes de o destino engrossar meu sangue, fui empurrado na hora morta da madrugada para buscar uma mula perdida no cerrado pedregoso de meu tio. O céu era um forro maciço de breu asfixiante e o silêncio mastigava cada estalo miúdo dos meus passos hesitantes na terra dura, chupando para dentro de si os contornos da minha coragem encolhida, até eu não ser quase nada diante daquele corpo opressor de trevas. Desesperado, espremido pelo medo mudo, eu gritei pela mula, soltando a força fina da minha voz na esperança de ferir e riscar aquele breu infinito.
Mas a noite é surda e não treme, Ted. No instante exato em que o berro terminou, o escuro espesso se dobrou por cima e o silêncio se fechou intacto, cimentando o meu esforço no ar gelado, liso de novo como se eu nunca estivesse lá, não sobrando nem arranhão da minha dor fina. A ponta fina do seu lápis escuro no papel claro é idêntica ao meu grito na pedreira cega, senhor Ted; ela risca no instante, reluz um calor vaidoso de fósforo curto e logo morre de frio engolida pela laje da noite inteira e eterna. O atrito no papel cessa na folha fechada; o papel apodrece esquecido e o breu mastiga sua tinta em silêncio absoluto.