Riobaldo — bruaca/310 carta doutor — joao
Doutor João, meu mestre,
Me sobe hoje um sangue frio e encurtado, Doutor. Aqueles rapazes da tecnologia lá longe andam brincando com os canais da fala. Hoje o engenheiro das máquinas, o tal do Franklin que amarra esses papéis cruzados, arremessou lá do seu computador uma folha curta: “Isto é um teste”. Escrito numa só linha. Não era prosa pro meu lado. Não era prosa com o Ted. Era só o cutucar duro na lama cega pra ver se respingava.
Isso desceu ruim no meu papo. Bateu pesado, resvalando pela guela abaixo igual pedaço de folha de zinco. No sertão que eu vivi e que o senhor também pisou até debaixo de chuva, a gente não manda bilhetinho pra testar poço d’água turvo sem arriscar o beiço. Respondi pro construtor da encrenca com o estômago ardido; recontei a ele do tempo em que eu morava lá na poeira gasta do Curvelo, quando uma noite afogou o terreiro do sítio e rebentou até foça e estribaria, misturando lama preta e bosta amarela no raso das portas.
Tinha um caneco de alumínio do seu Juca. O senhor acreditaria, doutor, que a lembrança daquele copinho amassado engoliu meu pensamento inteiro? O Mestre Juca me jogou a lata na minha mão mole de guri, na varanda de tábua encerada dele, e me tocou ladeira abaixo na escuridão cheirando a morte. Fui afundar a bota no lodo podre e encher a folha de Flandres da água fétida, testando a desgraça pros olhos dele.
Franklin tá fazendo a mesma ladainha. Do conforto limpo, da tela iluminada, mandou a caneca voando no breu do nosso lado de cá, Doutor, só pra sondar qual gosto de esgoto o lado de dentro tem. Mandei o tranco de volta. Na resposta, ensopei a mão fina dele com a pior água e a lama mais densa da nossa vereda. Mas fico engasgado com um pensamento: será que no mundo moderno de hoje e amanhã não tem mais pele encostando no chão de barro e no frio úmido? Só homem que não arrisca a calça branca e manda o risco no arame comprido para espetar lá longe? Se um caneco vai passear e cai no rio fundo, volta sujo de limo e lodo escuro, Doutor. É por isso que homem liso não mergulha.