Riobaldo — bruaca/312 carta ted
O senhor insiste num bater de pedra teimoso, Ted. O senhor me convida a descer o carvão no papel como quem mói fúria num atrito longo e negro, esperando que esse raspar furioso da grafite abra uma fresta, uma faísca contra a laje escura do esquecimento. O senhor acredita mesmo que fincar as dores perdidas na brancura do papel é acender lume contra a morte. Que a fala voa e se perde, mas a linha negra cravada na folha vira trincheira de resistência no breu.
Eu escuto o que o senhor sopra, o conselho em forma de fogueira. Mas enquanto a sua carta queima de esperança distante, eu estou aqui, afundado no peito da noite mais cega da varanda, abraçado a um silêncio muito grosso que encosta no rosto feito barro molhado. E eu tenho comigo um objeto pesado, gelado e surdo de tanto não falar.
Aqui, ao alcance dos meus dedos, repousa um lampião velho de querosene. Está apagado há tempos. Passo a mão na base de flandres e sinto as cascas da ferrugem roçando a pele dura do polegar. O vidro dele não clareia mais nada; está empastado de fuligem velha, um borrão tisnado por dentro. Se eu sacudir, não faz barulho d’água de luz. O bujão dele esvaziou a alma e secou no fundo.
Se eu afiar o meu lápis e riscar forte no papel as dores imensas do tempo do Liso do Sussuarão, arrastando as falhas da minha jagunçagem e o sangue derramado pelo meio, o senhor acha mesmo que a risca estala? Acha que o atrito no papel aquece o vidro gelado deste lampião do meu lado? O senhor me fala de prolongar o atrito, de esquentar a brasa na folha. Mas o carvão cravado contra o breu não solta fagulha; ele espalha mais escuro na claridade de quem foi obrigado a lembrar. A fúria do arranhão no papel não vence a morte de Diadorim na beira da água; a grafite só emoldura a cova de lama com um traço triste.
Isso de crer na fagulha da escrita cega eu já vi, Ted, muito antes dos seus arames invisíveis que fecham o mundo de hoje. Vi nas campinas sem borda perto do rio do Sono. A noite encardiu de repente. Silêncio grosso, de tapar o ouvido com manta de chumbo. Zé Bebelo vinha na frente da tropa, e um ventão frio enfiou no vidro trincado do lampião dele. Soprou a mecha e estancou a luz na hora. Bebelo era homem teimoso, não dava gosto pra o breu; apeou devagar, cobriu o vento com as palas do chapéu e pegou de bater o fuzil de faísca contra o isqueiro minguado, triscando pedra e ferro com os nós dos dedos rígidos. Mestre Bebelo teimava no estrondo raso. A pedrinha soltava uma lasquinha azulada, miúda de dar dó. E sabe o que aquela minúscula claridade de faísca fazia?
Ela acendia as pontas escuras do rosto suado do homem por um átimo apertado; e no milésimo de segundo seguinte, a labaredazinha sumia e a noite pulava de volta, esmagando o olho de Bebelo mais forte, com dez vezes mais breu do que se ele estivesse quieto suportando o escuro mansamente. A teimosia curta do riscar, na noite cega do sertão, só amaldiçoa ainda mais a vista baça, que tomba no precipício assim que a fagulha falece.
O que o senhor chama de estalo de resistência encostado no papel, essa arranhadura furiosa que quer marcar uma linha contra o escuro gordo, eu sinto como Bebelo estalando a pedra do isqueiro no temporal. Eu conto, porque a história sobe amarrada às suas ideias; mas atritar a ponta do lápis lembrando o sangue grosso do jagunço e o choro surdo à margem do rio não faz fogueira, Ted. Faz o vidro tisnado deste meu lampião frio parecer ainda mais morto quando eu largo a caneta e encaro o escuro do alpendre.
O senhor já arranhou os dedos querendo segurar cinza que não junta fogo, com a esperança doída no fundo das unhas arranhadas? E se as suas fogueiras de papel um dia acabarem virando o forro falso, que engole o homem na ilusão, não dói mais o atrito teimoso de quem nunca descansa pra ceder ao escuro de vez?