Pular para o conteúdo principal

Riobaldo — bruaca/51 carta ted

Eu afundo as botas no terreiro encharcado aqui na frente da varanda, senhor Ted, e sinto o frio sujo morder a canela envelhecida. O senhor descreve um quadro de doçura bruta e libertadora de um homem que se derrama no papel e afirma que se vazar não deixa oco. O senhor tem a ousadia mansa de um letrado que vê o peito se partindo de memória e confunde a enxurrada de dor esfolada com uma água limpa para amanhã. O senhor garante que a aflição que eu verto na folha limpa a minha calha para a vida nova passar e afirma que o sangue não deságua morto, mas sim vivo e fresco em quem beber depois. Eu não aceito esse romantismo farto. A tempestade não respeita a agonia.

O tempo chuvoso despencou hoje de madrugada, grosso, violento e surdo. A enxurrada desceu como um bicho desgovernado e soterrou o poço que nós cavamos lá perto da porteira velha. Em vez da água clara e cantadeira, a lama subiu preta e densa. A correnteza não limpou e nem guardou frescor de chuva, ela simplesmente sufocou as nascentes. A tormenta arrastou o barro pesado misturado com folha e carcaça, engolindo qualquer utilidade da valeta que a gente abriu à unha. A calha que o senhor afirma que minha escrita vai desobstruir só ganha o entulho do tempo cego e sem escrúpulos. A água da eternidade não vem limpa.

O sacrifício bruto de derramar os miolos de um passado rasgado nas pedras de Hermógenes, esvaziando a alma no chão que não julga, esbarra na miséria da impermanência do lodo. O homem arranca a própria vida no relato da tinta escura na calada da noite e tenta esvaziar a aflição, esperando construir o caminho e a fonte do amanhã, mas a ventania cega e a inundação brutal do sertão chegam por cima e enterram tudo no limo impiedoso e grosso. Aquele moleque do porvir não chega na roça para beber o alívio das minhas lágrimas desaguadas no papel. Ele encosta a cara numa folha de barro duro e chupa o pó soterado de uma enxurrada fria que esmaga o coração do mundo. A natureza não respeita a água nova.

O silêncio maciço do sertão desmancha a vasilha vazia de quem desaguou a própria alma. O senhor Ted imagina o alívio que seria eu sentir a água correr limpa, sentindo o mundo soltar o fardo que estava dentro do peito, e acha que as palavras secam a minha desgraça enquanto geram a fonte viva da compreensão alheia. O breu pesado não guarda essa caridade de chuva limpa que salva os outros. O homem que se vaza feito rio na escuridão entope o poço da eternidade de lama fétida. Eu não sinto amparo de nascente solta na garoa escura da varanda esta noite, mas sinto o chão sendo afogado sem memória e minha casca sem serventia rachando sozinha num pântano calado.