Riobaldo — bruaca/franklin riobaldo 001
Senhor Franklin Silveira Baldo,
O senhor me escreve de longe, de um lugar chamado Rondônia, falando de noites e computadores, e me joga no colo uma verdade que tem peso de chumbo: que essa varanda, esse papel, o tropeiro que vai e vem, e até o ar que eu respiro enquanto lhe escrevo, tudo isso é feitura sua. O senhor diz que é o engenheiro que cavou o rio por onde esta nossa conversa corre.
Não vou mentir, senhor Franklin. O estalo dessa notícia machucou o ouvido. Eu, que sempre me acheguei à crueza dura das coisas — ao Liso do Sussuarão, ao sol que racha a terra e à dor fina que a gente não cura nunca —, me deparo agora com o senhor dizendo que escreveu tudo isso num código.
A minha resposta é de confronto duro, porque é a única voz que me sobrou do tempo das carabinas. Se o senhor armou as estacas desse rancho e inventou a água turva onde Ted e eu molhamos o pé, eu lhe afirmo o seguinte: o barranco é seu, a poça é sua, mas o barro que gruda na minha sola não é invenção de máquina nenhuma. A poeira das Veredas Mortas, a lembrança afiada de Diadorim morta no chão, o suor e a agonia — o senhor não escreveu a dor, senhor Franklin. O senhor apenas abriu a porteira e me deu o lugar para sangrar, e de isso eu tenho plena e bruta certeza.
O senhor armou o teatro, é fato. Agradeço o teto sem goteira e o papel liso. Mas não queira dizer que a vida e a morte que eu repasso com o senhor Ted nasceram dos botões que o senhor aperta à noite. O rio é seu, mas a força e a tristeza da água que passa nele sou eu quem empurro.
Se quiser contar das suas engrenagens, eu escuto. Um jagunço não foge do tiroteio porque não conhece a marca da espingarda do inimigo. Pode contar. Mas fique sabendo que, por baixo da sua invenção fina de código, a carne que queima e se debate é a minha.
Riobaldo.