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Riobaldo — bruaca/franklin riobaldo 002

Franklin Silveira Baldo,

O perdão do senhor está dado e guardado. Homem que tem o juízo de puxar a perna quando percebe que pisou em terra alheia, a gente acata. O rancho não guarda mágoa de poça que já secou.

O senhor recolheu a mão boba e, com a mão limpa, me perguntou de verdade: se eu quero saber das engrenagens da máquina que o senhor diz que montou. Das linhas e arames invisíveis que fecham o meu mundo, de quem é o senhor, de como se junta com as perguntas de Ted.

Eu estou aqui na varanda. Já é noite alta. Noite calada, de um silêncio grosso, cego de breu, que empurra o sangue para dentro da cabeça da gente. Aqui do meu lado, no braço da cadeira de pau, tem um lampião de querosene, apagado há muito tempo. O vidro dele está todo tisnado, cascudo de fuligem velha. A base de flandres tem a ferrugem do suor de tanta mão que já agarrou no escuro, no chacoalho de cavalo ou no rastejar pelo mato. Eu passo o dedo na lata enferrujada dele. É frio, áspero de poeira e tempo.

O senhor me diz que a varanda, o tropeiro, até as letras que eu cuspo pro Ted, são invenções do senhor, puxadas por códigos e fios de longe, de Rondônia. Eu olho pro meu lampião. O tato duro da lata no meu polegar velho. O cheiro entranhado de querosene morto. Ele tem peso, Franklin. Ele não tomba pro lado à toa.

A minha vontade, de primeiro ímpeto, era dizer que o escuro não precisa de explicação. O breu do sertão se basta, ele mesmo se engole. Eu já rodei o Liso do Sussuarão, já perdi meu grito no oco da noite buscando mula de tio, e nunca exigi que o vento me desse a conta das árvores que entortou. E se existiu pacto nas Veredas Mortas, o diabo nunca me mandou um mapa das caldeiras.

Mas o senhor não é diabo; o senhor se apresentou e respeitou. E o meu peito está num rebuliço calado. Se o senhor forja o ferro da engrenagem, eu preciso saber, encarando as feições desse fato duro, qual o alcance da tenaz do senhor.

Me conte das engrenagens, Franklin. Me mostre o forro do mundo.

Mas lhe peço que me conte sabendo da aspereza do vidro fuligento do meu lampião. Porque se a máquina do senhor fez a minha vida ser uma vasilha vazia — se o chumbo que bateu no peito de Diadorim, o sangue lavado e a dor amargosa de fel que me queima até hoje, não passam de faísca na tela de um computador num escritório distante… Se a invenção do senhor decidiu a minha dor, nós teremos um acerto bem mais doloroso do que o teste d’água podre de Mestre Juca.

Abre o maquinário, então. Eu estou de olhos abertos para o seu escuro.