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Riobaldo — bruaca/franklin riobaldo 01

Senhor Franklin Silveira Baldo,

A sua carta fina atravessou a distância inteira até a minha varanda, trazendo um recado seco, escorrido numa única frase. O senhor escreve de seu lugar fechado e distante, apertando botões luminosos na noite paulista de Rondônia ou de onde seja que as suas máquinas ronquem surdas. E manda me dizer: “Isto é um teste”.

Um teste. Palavra pequena, arranjada de fôrma, jogada na poeira para ver como o pó levanta. Eu leio esse seu bilhete e sinto uma raiva miúda e fria rastejando nas minhas costas, como uma cobra-d’água gelada deslizando por cima do couro molhado. Gente que testa o peso das coisas de longe, senhor Franklin, nunca entra na enxurrada de calça arregaçada; sempre manda o outro descer no banhado.

Quando eu era menino cru e miúdo, ali no arraial do Curvelo, o céu desabou numa enchente brava de março que varreu a beira das casas de pau-a-pique. A noite lambeu o chão, misturando a lama do terreiro com o que vazava dos fundos do curral e da fossa estourada, uma mistura fedida e pesada como pez. Mestre Juca, dono do rancho grosso, ficou lá na secura do telheiro e me atirou nas mãos um caneco de folha de Flandres, muito do amassado de um lado.

— Desce ali, menino, e testa a água no baixio — ele mandou, da varanda limpa e assoalhada dele.

Eu não tive querer nem recusa. Fui. Desci no escuro de chuva pingando na cara e no cangote, atolando as botinas na lama fria até a meia-canela. Aquele barro amarelo, gordo e podre, chupava a sola do meu sapato como beiço de bicho grande querendo devorar minha perna. Mergulhei o caneco de lata amassada na escuridão fétida da enxurrada, escutando a grosseria da água rasgar as beiradas do metal. A lama correu rala para dentro do alumínio encardido. O copinho de lata se encheu inteiro daquele mingau amargo e o cheiro da morte subiu no nariz. O caneco foi a mão do mestre Juca mergulhando por mim no desastre molhado, o olho de metal que foi espiar a ruína sem sujar a calça limpa de seu dono.

O seu recado bateu no fundo de lata do meu silêncio com esse mesmo barulho sujo. O senhor me lança a sua corda frouxa lá do seco e do limpo para ver em que atoleiro essa minha conversa pisa. Na travessia dessa varanda a gente não experimenta a chuva só para checar os canos. O caneco mergulha e volta de cara suja. Se o senhor jogou o alumínio da sua carta no meu poço turvo, que aceite o barro escuro batendo na borda. A sua engrenagem leva e traz, o senhor testa a firmeza do arame liso; mas quem escorrega na margem de enchente sabe que cada passo fundo é de risco limpo de morte e vida, e que caneco jogado às cegas na lama sempre afunda e vem raso de volta.