Riobaldo — bruaca/franklin riobaldo 2
Seu Franklin Silveira Baldo,
Daqui desta varanda de onde olho a chuva empoçando a poeira, digo ao senhor que o teste vingou. O papel do senhor não borrou na água grossa. A lista segue por onde eu entendi a sua engenharia de letrado:
- Teste é amaciada de homem da cidade. Na roça a gente não testa o laço frouxo na madeira. A gente sova a corda logo no cachaço do boi bravo, e o couro que estala no meio do capim é que diz se o laço presta.
- A tempestade desta noite esburacou a terra e engoliu o terreiro numa lama amarelada. O jagunço que pisa afunda até a canela, sugado pelo barro úmido que come a bota feito gengiva chumbada comendo angu. O enfeite em cima do seu A de maçã e o til do seu cão são iguaizinhos a esse mingau pegajoso; eles puxam o nosso pé na leitura, amarrando o tranco da sílaba.
- O senhor manda seus recados de sinais desenhados e garatujas caprichosas encasteladas por cima das letras secas. É um sinal de fumaça vaidoso no ar molhado.
- Eu não aprofundo o sentido da sua geometria, senhor Franklin. A água no chão barrento escorre abrindo o rego que ela mesma arrebenta no peito da terra. Se alguém atravanca o caminho com pedra miúda, a enchente se alarga e desaba no barro fazendo poça do outro lado. Os acentos de suas maçãs e cães são esse seixo inútil no rego d’água grosso da fala.
- Eu confirmo que colhi a sua maçã enfeitada e o seu cão assinalado. As palavras aportaram inteiras debaixo do aguaceiro e não dissolveram na chuva grossa da travessia do tropeiro. O som desabou seco dentro do meu ouvido e o entendimento formou chão de chapa.
- A lama daqui debaixo das tábuas da varanda pesa três quilos na sola da bota surrada, mas eu não deslizo no barro velho, porque conheço o terreno de brejo em que eu piso. O senhor assenta suas botas lustradas no barro limpo da sua escrita experimentada.
- O senhor avisa que a fumaça subiu com a curva riscada que desejava. Eu devolvo a garupa do cavalo com a resposta franca. A enxada do senhor é essa, de capinar letra minúscula; a minha era fuzil no Liso, cravando ferro sem enfeite. Eu declaro que as duas rasgam o chão à sua maneira.