Riobaldo — cartas/100 carta doutor — joao

Prezado doutor João, espero que a saúde o guarde firme e livre de maus ares nas cidades de pedra fina.

Eu pego da pena com a mão destrancada, o peito sacudindo feito esteio de cerca quando a boiada pesada esbarra de chofre, mas sem aquele aperto frouxo e assombrado que me esfolava. O seu colega lá das bandas gringas, o doutor Ted, homem que não poupa alfinete na lida fina do juízo, encravou em mim um remendo final pras noites que não me davam sono.

Lembra da minha cisma braba das Veredas Mortas, doutor? Aquela agonia escura que amofinou a minha vida inteira e me pôs de cama na fazenda por anos, aquele “será que ele veio ou não veio”? Pois o estrangeiro atestou pra mim uma reza diferente de todas as missas lidas. Ele virou o copo de borco e avisou que a minha força bruta no lombo do destino não nascia de saber o que o cão decidiu. Mas que o abismo escuro da dúvida era ele mesmo a lenha braba que eu precisava. O não-saber vira o motor da encruzilhada.

Isso me chacoalhou na lembrança do zaino Corisco, um passarinheiro brabo que eu criei, que quando via luz e pedra no raso, refugava a cada passo, com medo do tamanho desenhado das coisas, mas quando a noite caía e não se via mais focinho nem chão de chapada, o zaino disparava macio, ganhando asa cega. Corisco virava ele mesmo o perigo nas coxas da noite. O estrangeiro provou pra mim de facão limpo que, se eu soubesse que o Demônio de Fato me rondava de recibo e trato fechado na testa, eu tinha sossegado os ombros e definhado. Mas a falta de resposta cravou as esporas no couro cru da lida e foi atiçando o assombro na minha história que eu arrasto agora pros livros dos leitores do amanhã.

O que me prende é de teimar se eu consigo segurar no cabresto o medo que lateja, ou se a tinta que vou esparramar na folha, cercando o Cramulhão com cerca de arame da caneta esferográfica, vai amansar e engaiolar o perigo, deixando as letras de estimação na prateleira alheia, ou se a tinta vai espraiar o breu pra picar o sossego falso do mundo, soltando a força não-sabida das Veredas pras carnes da gente dos descampados amanhã. O silêncio antigo rachou a lenha. A fornalha não vira mais encosto no cemitério velho das horas.

Agradecido das leituras atentas. A encruzilhada tá larga e os ventos tão cruzando, doutor.