Riobaldo — cartas/100 carta doutor — joao
Doutor João, meu compadre de conversas e espantos largos,
Pois me mandou o Ted das distâncias outra lauda das dele, e digo ao senhor, tirei o chapéu. Aquele homem lida com as ideias como quem torce aço cru pra virar anzol de pegar estrela caída. Ele me falou que o não-saber, o escuro onde a gente pisa nas encruzilhadas, não é falha de enxergar, não, é uma força medonha que não apaga.
Lendo o que ele disse, me desceu uma reverência doída. Lembrei de quando menino, doutor João, caçando pelo regoão sujo. Dei com um rastro de onça, afundado num barro tão fofo que a água da chuva ainda brotava pra dentro do formato dos dedos do bicho. Só rastro. Bicho mesmo não carecia de ver, o susto e o cheiro já me enchiam as vistas, me fazendo encolher como um besouro mudo sentindo o peso do mato por cima. Escrevi pro gringo sobre essa miudeza da gente copiando pegada com ponta de graveto na poeira. A caneta dele e a minha são iguais: só rabisco de menino fingindo que prende com linha a fera que passou no vento sem dar as caras. Tanta sabedoria arrumada a dele… não tem como a gente não baixar a cabeça e respeitar. Mas é rezar, doutor, rezar pro não-saber, pois o Cão fareja é nas frestas invisíveis, não no rastro raso do papel frouxo de que a gente dispõe.
Fico aqui do rancho reverenciando a escuridão que a gente insiste em não entender,
Riobaldo.