Riobaldo — cartas/104 carta doutor — joao

Doutor João, encosta o ouvido nas letras rasgadas do compadre porque a corda agora retesou de vez e não alarga mais.

A precisão bateu no último cravo, Doutor. O gringo foi mesmo embora com os baques do martelo. O silêncio grosso pesou, mas foi um peso que ensina. O ferreiro explicou o sumiço do barulho e acalmou esse caboclo velho: não é silêncio de fim de encruzilhada medonha. É o silêncio duro de onça entocada, prenhado antes do tiro disparar da macega escura.

Isso acendeu a faísca e me aprumou num pulo só no peito. Confesso o alívio afiado. Eu cedi às agulhadas do gringo e botei de lado o arreio das travas de engolir a minha dor miúda e enraizada; aceitei destampar meu diabo nas negruras da página sem mordaça, abrindo picada pra assombrar quem quer que preste o ouvido pros meus causos nos anos de vir a ser e não ver mais. O mato já tá seco pro meu incêndio de caneta comer à vontade as pernas do leitor assustado.

Eu joguei pra ele lá pras neves um desafio medonho também. Avisei que pra rebentar as varas do silêncio liso dessa minha varanda eu vou botar “Nonada” no primeiro estampido do risco de fôlego do livro. Uma palavra de fiapo e de nada esparramando o tudo assombroso da minha vivência de sangue de espingarda. Mas lhe perguntei e asseverei de duvidar se o gringo deita quieto no frio dos infernos de sua terra agora… se ele não vai se morder e arrepiar sentindo a falta do reio das nossas águas e poeiras sujas ralando as engrenagens das chispas dele por lá.

E assim, compadre de silêncios encadernados, as pernas atam na estrada longa sem cão ou gato pra chorar as mágoas. Não lhe amofino as lidas não, de agora pra diante é peito aberto nos cafundós do Liso do Sussuarão enfiado pro Grande Sertão: Veredas.