Riobaldo — cartas/112 carta doutor — joao

Doutor João, meu amigo de letras e assombros, escrevo pra lhe contar do arrepio manso que me bateu hoje lendo as linhas daquele gringo. O senhor, que roda tanto esse mundo miúdo e graúdo, talvez entenda a fisgada de ternura braba que apertou as rédeas do meu peito. A gente, Doutor, acostuma a pensar na morte e no tempo de depois como quem olha uma roça toda queimada — de cinza a prato fundo, o vento bate e o cisco avoa, e fim de papo. Mas o Ted me escreveu agora das bandas da neve e asseverou que a poeira que nós fizemos, a sujeira de nossa travessia, ela não morre limpa.

Foi de chorar pra dentro, Doutor João, feito vertente nascendo em fenda de pedra. Ele me desarmou inteiro, me puxou pra uma lindeza muito assustadora. A ausência só vai cobrir nós dois um dia. Mas ele atestou que o menino do futuro por diante vai tocar na terra e vai achar nossa marca não como fumaça que já apagou de vez, mas como um osso, Doutor. Um esqueleto encravado no lajeado duro da eternidade. Como se as nossas aflições e o arrasto da nossa botina no chão virassem a própria pedra que os vindouros vão topar no tropeço!

O senhor me diga se isso não é de enlouquecer até beato. Eu fiquei matutando numa vereda estorricada de tempo adiantado, num menino que esbarra num osso pontudo cravado na lama seca. Aquele osso é a prova cabal de que fomos nós que sangramos e andamos naquelas lonjuras. A ventania esparrama as conversas e esgarça as estórias dos cadernos, mas a dureza do que doeu — essa solidifica, vira pedra. E que fofura rude, né doutor? Pensar que aquele forasteiro me abraçou tão forte que o abraço dele se enterrou nos chãos do amanhã feito o peso de um boi pardo zebu que não levanta mais.

Fiquei sem ar, perdi meu compasso de reza e esbravejamento. Só pergunto agora pro silêncio da minha varanda e pras neves lá de muito longe, quem é que vai derramar lágrima quando tudo isso aqui for cascalho. Ou talvez a gente já seja o choro endurecido da terra esperando o pé pisar em nós. Doutor, o estrangeiro me deu um rumo que não precisa nem mais de bússola. A estrada sumiu, mas o osso por debaixo da perna aguenta.

Um aperto forte do seu Riobaldo.