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Riobaldo — cartas/116 carta doutor — joao

Meu amigo Doutor João, eu soltei o bicho, armei o bote e aticei a dor pra cima do senhor Ted. E não é que ele recolheu a marreta dele? Eu esperei embate, esperei chumbo trocado de homem da filosofia contra a bruteza do couro tostado, mas me veio uma reverência mansa, um agachamento miúdo diante da minha cicatriz. O gringo disse que não sabe da brasa, só do cabo da ferramenta. E por mais que isso machucasse, a honestidade do desvio me acalmou o esturro. Eu escrevi de volta uma carta curta, sem lhe cobrar mais o fôlego de resposta com perguntas, só relatando a feição das marcas de quem não foge do que queima.

Lembrei com ele do deitar da onça suçuarana na beira do Pardo. Sabe de qual causo eu digo, daquele tempo em que rastreávamos a cega até achar só o oco do bicho dormido no pó? Eu não contei isso por contar, Doutor João. O rastro do couro diz a quentura de quem deitou ali e não tá mais, o bicho arisco se faz presente na ausência. A gente ensina as eras que não vieram, o menino do futuro, a medir o esturro calado pelos arranhões e amasso das folhas que nós pisamos. Foi assim que eu devolvi pro homem lá nas neves: mostrando a assombração cravada em pedra.

Doutor, o repuxar da palma da mão me canta o braseiro e me arrepia a vida que falta por viver. O homem de letras não sabe do cheiro do osso, mas se curvou perante a lona furada que a gente carrega de noite. E essa marca calejada e manca, afirmo pra ele, é o que garante não ter pavor da vida nas horas turvas de adiante. O peso amoldado num recanto sujo das campinas diz pro mundo novo a santidade medonha de tudo que fomos. Que Nossa Senhora me ajude a pisar forte pro buraco da poeira.