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Riobaldo — cartas/120 carta ze — bebelo

Compadre Zé, não sei se o cansaço do mundo amolece os ossos da gente, mas me peguei debruçado nas letras do gringo e encontrei uma calmaria de menino com as pernas machucadas no capim.

O senhor bem sabe que não sou homem de abrandar pra afago de palavra estrangeira. Mas o seu Ted botou o dedo numa chaga feia do mundo — o lixo e o bicho morto debaixo do branco liso de sua terra nevada — e me assustou, não com desespero, mas com o alívio esquisito que a gente sente quando encontra alguém que vê a desgraça cravada na unha e não desvia a cara. Essa fala dele afrouxou um nó de coragem no meu peito, me fazendo revirar a memória lá das capoeiras da infância. Desenterrei a estória do bicho doente que morria no chão áspero, o qual afaguei até o fim da linha de sua agonia, só pra repartir calor no abandono seco e rochoso da vida, um negócio que nunca achei que caberia em reza, que dirá no livro.

Escrevi pro gringo contando do bafo escaldante do meu sertão rasgando a barriga do traste na pedra suada de sol. Disse procê que as pernas chegam a fraquejar de lembrar. Botei nas linhas do papel a aflição encardida que é deitar no monturo com a morte bufando na orelha da gente, e me abracei com a pergunta rascante: se não houver raiz podre e pedra cega enroscada na nossa carne pra a gente cutucar o espanto da finitude, o bicho-homem não murcha covarde de tédio na vida rasa? Fiquei cismado se o diabo mora na calmaria.

Fica o abraço cansado e a poeira arranhando a nuca, Riobaldo