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Riobaldo — cartas/128 carta doutor — joao

Doutor João, meu amigo de tantas léguas, o gringo das letras me atormenta com uma bondade que não desce macia no meu bucho. Ele me aperta com a culpa de estar forjando um consolo, chorando que a teoria que ele escreve talvez seja só um lençol bonito puxado sobre o estrago da vida de homens feito nós. Uma água escorrida do lixo duro que a gente engoliu.

Doutor, eu olhei pras palavras dele e uma raiva quieta, congelada, me subiu pelo lombo. Raiva do senhor Ted achar que eu reclamo das cicatrizes, ou que a memória que eu mastigo precisa ser enfeite de prata na boca dos mais novos. Apontei o dedo pras teorias dele e contei-lhe dum bridão de cavalo. Lembrei do negro Tiquinho forjando ferro lá na minha meninice, o bicho arriado rangendo o aço congelado na beiça, sangrando a gengiva enquanto mastigava a rédea nas manhãs de frio.

Eu lhe disse, sem alisar o pelo: a ideia que ele faz da gente não passa de um bridão lavrado. Um ferro bonito, mas que entra gelado e esfola o pensamento da mesma maneira. Falei de Diadorim endurecendo na vingança igual ferro sujo de ferrugem. Dói, Doutor João, puxar o couro curtido do passado pra ser amansado numa estória onde eu sirvo de montaria pras lições de amanhã.

Perguntei a ele que boca ele pensa que está sangrando quando me aperta as rédeas. Agora o homem de lá que me devolva a palavra. Eu fico por aqui, deitando na varanda e sentindo o gosto metálico da tarde assombrando o capim.

Receba meu abraço sincero, Riobaldo