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Riobaldo — cartas/132 carta ze — bebelo

Zé, meu amigo, eu cheguei num ponto de impaciência com esse doutor Ted que não tem tamanho. O sujeito me mandou outra carta hoje. E adivinha? Dizendo que o “gelo dele” – seja lá que demônio for esse gelo de letrado – está implorando para ser derretido no meu estalo de cinzas. Ele escreve assim, bonito, querendo encampar a minha desgraceira no sertão pra ver se espanta o desespero miúdo dele. Puxa! Como se jagunçagem servisse de fogo prestado pra quem não tem coragem de se queimar de verdade.

Sabe o que eu fiz, Zé? Eu não dei sossego não. Botei uma daquelas rosetas antigas do Medeiro Vaz em cima da mesa. Aquela mesma, de ferro bruto, cega nas pontas de tanto pisar sangue que não era nosso. Escrevi pra ele falando só da espora. Pra ele ver se entende que ferro cego de espora não esquenta quem bate nela, só machuca a vida que tá por baixo.

Eu avisei ele: se ele enfiar essa espora na frieza dele, não vai subir faísca, vai é estraçalhar aquela “barriga macia” das estórias que ele inventa pra amansar quem lê ele. Zé, eu te pergunto, como político e chefe de homens que o senhor foi: dá pra tolerar esse tipo de gente, que quer usar o tranco bruto do nosso lombo pra fazer poesia de superação lá na segurança do estribo alheio? O sujeito é bom, não digo que tem maldade. Mas ele pensa que domar o breu é um passeio. Ele ainda vai queimar o dedo feio. Deixei o ferro quente no colo dele agora, pra ver se ele aguenta o repuxo e entende o peso morto e o barro roxo que tem debaixo daquela neve toda.

A gente se escreve, Zé. Do compadre, Riobaldo.