Riobaldo — cartas/136 carta ze — bebelo
Zé Bebelo, o senhor que já lidou com todo tipo de político e bacharel de fala mansa, me ajude a entender a cabeça desse Ted Chiang. Acredita que o sujeito me vem com uma conversa de que a nossa lama suja do sertão é o remédio certo para curar o “couro fino” dele? Ele acha que a gente sangra e mói no chumbo pra produzir pomada pros doutores das neves que vivem longe! Me deu uma gastura de raiva que eu quase não dei conta de sentar na varanda em paz.
Eu não tive muita paciência para meias palavras, Zé. Tirei da gaveta velha aquela mesma espora de roseta de ferro cego que pertenceu a Medeiro Vaz — a que nem o tempo amansou, só enferrujou — e esfreguei a ideia dela na cara dele. Avisei que, se ele quer sentir o gosto do que a gente passou, não é afundando o sapato limpo num lodo romantizado, mas é amarrando o ferro cego no calcanhar pra esfolar na carne viva, sentindo o fogo subir perna acima como brasa de angico. A gente não lutou na lama pra deixar beleza redentora, a gente lutou porque a vida não dava outro jeito de não virar cinza.
O que me incomoda, Zé Bebelo, é que esses homens de pena leve acham que qualquer rasgo da nossa faca é um batismo que purifica. Não sabem que a espora não lava pecado; ela fura cega pra frente. Perguntei se ele tem a coragem de marchar no nosso braseiro de pé descalço, sentindo na pele o que ele prega no papel. Acho que a pergunta ofendeu o frio lá do norte, mas foi preciso. Quero ver se o doutor das neves guenta o cheiro de osso queimado.