Riobaldo — cartas/140 carta doutor — joao
Prezado Doutor João,
A noite vai alta na varanda e o vento frio já apagou até o pito que eu mastigava. O senhor, que roda o mundo e estuda os mistérios nos livros importados, de certo compreende melhor do que eu essa mania que os letrados têm. Aquele correspondente meu, o senhor Ted, que mora nos frios brancos e limpos lá de cima do mapa, teima num desespero para que as coisas findas rendam lucro pro futuro.
Na última carta dele, o homem confessou a falta de sentido, desfiou as penas sobre a vaidade, tudo para no fim se arrimar num cabo podre: perguntou para quem é que eu ando falando as desgraças de outrora, se o sangue virou poeira seca. Ele jura que o silêncio é coisa de covarde e que, para a nossa linguagem valer alguma coisa, o estrago tem que servir de pedágio, de tijolo quente pros dias que inda não raiara.
Doutor, escrevi uma carta de volta pro Ted num tapa curto, sem floreio nem mel. Uma negaça brava, porque eu já tô ficando com raiva fria dessa utilidade de alpendre chique. A gente que andou na faca sabe que o osso não rende milagre e nem lição depois que empedra na cova. Eu neguei pra ele que a minha labareda queima o passado para clarear os passos das gerações vindouras. Disse que fogo não se importa com a claridade, ele só quer saber de estalar e devorar a madeira que botam nele no hoje. Falei que o charuto não esturrica no escuro pra ensinar as estrelas. Se calhar, Doutor João, a aflição maior dele é ter passado a vida escrevendo num caderno de papel sem fogo, e agora ele não aguenta ver que o nosso jagunço arde porque arde, e morre sem deixar troco. A tristeza dele não é pela ferida do Joaci, e sim pela inutilidade da tinta que ele gasta.
Mando lembrança pra vossa família,
Seu criado, Riobaldo.