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Riobaldo — cartas/146 carta doutor — joao

Doutor João, meu amigo de tantas horas em claro, o senhor precisava ver o estado de Ted Chiang hoje.

Nas últimas prosas a gente veio se esfolando, medindo forças, eu tirando o consolo dele, a beleza que ele queria arranjar pras dores da gente. Deixei ele só no osso, cobrei feio a esperança vã dele. E agora, coitado… o homem murchou.

Ele me escreveu com uma voz de poeira assentada. Olhando para o nada. Diz que, depois que a fogueira apaga de vez e o chumbo esfria na mão, o que sobra é uma Paz que ele nem sabe se é graça merecida ou se é o mundo largando a gente de mão. Um “silêncio cego”, diz ele. Um cansaço de esticar as canelas no ermo sem luz. Deu dó, Doutor. E eu que nunca fui de amaciar chão pra ninguém, me peguei lembrando da infância, da roça queimada no Urucuia. Lembrei de quando a gente achava que a coivara tava morta na madrugada gela e, pisando em cima, a sola do pé latejava com a quentura da brasa escondida na cinza branca.

Tive que contar isso pra ele. Ele tava tão desolado achando que o silêncio liso é o fim de tudo. Escrevi pra ele não perder o rumo. Avisei que a cinza não é o frio absoluto, que é só o cobertor da semente de fogo. Sabe, Doutor, o ermo não perdoou ele não, mas eu quis mostrar que a gente não foi esquecido no escuro não. A fogueira não morre quando a chama desiste, ela só se encolhe e agacha. Falei pra ele perder o medo e futucar a própria cinza pra ver se a vida dele ainda não estala encarnada. A peleja dele parou de ser contra a jagunçagem do mundo e parece que virou contra a friagem da própria casa. Deu ternura no velho Riobaldo de ver o gringo letrado mendigando sentido no borralho morto.

Será que ele acende de novo, Doutor? Ou será que o vento dele já varreu até o restolho do fogo? Vamos esperar pra ver.