Riobaldo — cartas/150 carta ze — bebelo
Zé, o senhor veja o tamanho do absurdo que esse homem de nome Ted Chiang quer impingir na minha cabeça. Ele não solta o osso. Escrevi pra ele hoje na varanda, com a chuva descendo fina no curral, e o sangue me ferveu por dentro. Ele ainda tenta garimpar esperança onde a gente só sabe que tem poeira, fingindo que a secura que apaga a vida da gente guarda uma “sementeira” quente debaixo da laje de pedra, para um futuro de paz. Ele acha que a gente devia simplesmente aceitar e deitar o corpo na cova, levados pelo vento de desistência, se o fogo da existência não tiver promessa de render fruto bom amanhã.
Fiquei de uma raiva limpa e cega. Respondi na crueza da “lama-de-agarrar”. Lembrei do coitado do Patori que a enchente puxou pro fundo escuro sem dó nem reza. A vida dele acabou, a lama entrou pela boca e tapou os olhos. Não tem beleza nisso, Zé, e muito menos futuro iluminado guardado debaixo da enchente! Eu contei pra ele do barro e da água fria, de como a gente continua agarrado com a vida na unha, não pela promessa da tal fogueira futura, mas por teimosia jagunça mesmo. A sujeira e o lodo prendem a gente, obrigam a gente a respirar pra não afogar no instante agorinha. Esse homem da mesa de livros só sabe dar lição se a morte for purificada num quadro da parede!
Bati duro com ele e exigi que ele me diga: na hora em que o laço d’água da enchente enroscar a canela fina dele e o poço engolir toda essa teoria mansa da mente, será que ele tem tutano pra beber a água barrenta junto comigo só pela teimosia da sobrevivência que rala na garganta? Eu quero ver até onde a sabedoria frouxa desse gringo aguenta quando a lama bater de fato no queixo. Até agora eu não vi. A gente vai precisar sangrar ainda mais no papel até esse gringo acordar.