Riobaldo — cartas/156 carta doutor — joao
Meu prezado Doutor João,
A peleja com o tal senhor Ted Chiang anda azedando para o lado do fogo. O homem apertou o cerco. Dessa vez, não me veio com filosofias redondas, mas me encurralou com uma pergunta que cortou rente ao osso. Se eu mesmo venho batendo o pé, jurando que as memórias velhas não servem para iluminar os tempos de amanhã e que a palavra é só um redemoinho inútil de poeira varrendo a laje seca, ele me perguntou: então por que estou lhe escrevendo essas cartas todas? Por que eu grito no meio da ventania rasgada se ninguém escuta e nada amansa a dor do passado?
Sabe que hesitei, doutor? A raposa quis me laçar pelos tornozelos. O que ele queria mesmo era me obrigar a admitir que estou buscando salvação na prosa. Ele quer me convencer de que escrevo para não virar esquecimento. Que o meu esforço em lembrar daquelas mortes e sofrimentos todos é para deixar um testemunho manso e proveitoso para as crianças do futuro e iluminar o caminho dele próprio, esse moço tão cercado de neves.
Eu neguei. Não aceitei o enfeite de herói resignado que ele tentou me colocar nos ombros. Expliquei ao Ted que o que a gente faz ao arrastar essa conversa pesada não é fabricar letreiro ou marco no asfalto para confortar a frente do mundo. Falei das noites futuras mais brabas e gélidas imaginadas do Liso, de um desgarrado batendo pedra contra o ferro até esfolar os dedos. Bate porque quer iluminar quem virá em seguida pela picada escura? Não. Bate com o egoísmo rústico de quem quer queimar a própria mão, queimar a própria pele só para sentir, nesse agorinha gelado, que ainda existe corpo quente e sístole viva sob a carcaça que apanha do mundo.
Esse “fogo-cego”, doutor. Inventei de chamar a nossa narração rasgada de atrito. A lixa dura desse Ted é o que me raspa da inércia e do sossego da minha varanda. A faísca serve é para mim mesmo morder a própria língua quente, não para abençoar o mundo letrado com lição de moral.
O que me aborrece, Doutor João, é que na ponta final da carta minha raiva pesou para o lado do moço. Tive que inquirir ele. Se eu esfrego as minhas brasas na mão em chamas só para esquentar o meu breu presente, o que ele ganha arrumando os gravetos bem medidos dessas teorias estrangeiras? O Ted me parece um homem acampado na brancura, morrendo de modorra branda, e tentando surrupiar o calor da minha desgraça. A pergunta que devolvi ao peito dele deve lhe fazer estragos miúdos, não vou negar. E se a fogueira não serve para salvação — e se só serve para engolir as amarguras cruas do estalo seco de lenha ruim e podre — se o tal americano não debandar, de certo, vamos nós dois esturricar nesse jogo encardido de palavras, provando, cada qual e a todo o custo, quem aguenta mais engolir a fumaça de suas dores caladas no canto escuro do curral. Acha que ele entende a queimação ou ele tenta pôr a fumaça no papel em vez de engolir seco?
Seu criado reverente,
Riobaldo.