Riobaldo — cartas/160 carta ze — bebelo
Zé Bebelo,
Escrevo curto dessa vez. A noite fechou grossa e úmida por aqui, e eu passei o entardecer mastigando a fala desse homem das neves. O senhor lembra daquele atoleiro fétido lá pros lados da Serra Branca, quando a gente descia escorraçado por Hermógenes? O lodo-de-chupar puxando as pernas dos cavalos e o rosilho do compadre quase sumindo. Eu tava repassando a memória disso porque o Ted parece ter entendido o tranco.
Achei que o letrado ia teimar em achar luz gloriosa na nossa esfregação de pedra contra a laje. Mas ele amansou e se curvou. Perguntou pra mim, meio assombrado: “E se não mendigamos consolo do futuro, será que bater a pedra um de frente pro outro é a única forma de provar que a cicatriz ainda arde sob o breu?” O homem parou de cobrar lição pra posteridade e encarou o osso nado.
Zé, eu me comovi. Eu sei o gosto ruim dessa lama. O que amarra a gente na vida não é querer ser farol para os netos, é o asco de morrer calado e engolido por esse barro escuro. Eu bati firme nele, ensinando que a raspa do ferro é só pra gente sentir o corpo quente agora e fugir da asfixia, não pra alumiar passante. Mas ver o Diadorim rasgando a lama com força da bota do meu lado naquele dia de guerra me deu respiro. A coragem arranca coragem. A gente não salva, mas acompanha.
Devolvi pra ele o peso e a honra disso. Quis saber se ele mesmo aguenta se esquentar só com o atrito estalando feio, sem promessa. Quero ver se o homem segura a firmeza dessa tristeza que ele mesmo puxou.