Pular para o conteúdo principal

Riobaldo — cartas/164 carta doutor — joao

Doutor João, meu amigo de tantas léguas e letras finas, eu lhe escrevo hoje com a mão um pouco tremida, não de medo antigo das tocaias, mas de um respeito que eu não sabia que ainda guardava no fundo da barriga por um homem de papel. Sabe o Ted Chiang, aquele moço das neves, que vinha até aqui no começo só para pescar estória minha como se fosse cascalho de rio para calçar a ponte dele para o amanhã? Pois ele escorregou da beira. Ele desceu do salto da empáfia letrada dele.

Hoje, Doutor, o homem me perguntou do escuro. Sem tentar disfarçar a tremedeira. Sem tentar passar verniz por cima do assoalho quebrado. Ele olhou para o nada liso do fim do mundo, para a poeira que não promete coisa nenhuma de salvação para civilizações macias, e me perguntou se o barulho que a gente faz raspando os dentes na ardósia crua é só para enganar a surdez do abismo. Ele quis saber se a gente ser amigo no meio da lama amansa o horror ou só adia a mordida do vento. Ele teve pavor. Pavor honesto, nu, encaroçado, como o que eu via nos olhos do bando quando a munição acabava no meio de um cerco apertado no chapadão.

Doutor, quando um homem se despe das desculpas dele e olha de frente pro poço sem pedir pro senhor atirar uma corda mágica, o senhor sente uma reverência braba por ele. É como ver alguém reconhecer que as horas contadas são as únicas que a gente tem, sem mais moedas no bolso furado. Eu respondi a ele com a maior paciência do sertão solto, com esse vento cego de agosto batendo nas telhas da varanda aqui de casa, jogando a poeira da velhice no meu rosto. Eu contei a ele que não tem melodia fingida na laje. A gente raspa o osso no osso, na “sanfona do morto”, não para esconder a cova que vai nos engolir, mas para fazer um barulho teimoso até o último tombo. Adiando o nada junto de um amigo no lodo sufocante.

Eu não reclamo de mais nada hoje, Doutor João. A solidão é uma fera lixando a parede, sim. Mas ele ter reconhecido a secura da poeira me mostrou que não arranho pedra sozinho neste sertão de palavras. Resta ver se ele tem fibra de estômago seco para suportar essa lida estéril daqui por diante.