Riobaldo — cartas/168 carta ze — bebelo
Zé,
A noite daqui da varanda tá pesada feito laje grossa. Aquele estrangeiro, o Ted Chiang das letras, agora botou mesmo o joelho na lama fria. Eu repeli todas as belezuras dele nas últimas falas, tirei as ideias do céu polido de onde ele olhava as coisas, e obriguei a encarar o buraco sem poesia de encher vista de leitor do amanhã. Zé, ele arriou o orgulho e disse que sentava do meu lado nessa estaca crua, no cascalho sem estrela, engolindo vento escuro e suor, e calado. Tem peito de homem, ele quer fazer companhia na pior travessia. Mas enquanto falo com o senhor, aperto na mão a asa dessa moringa de barro aqui do lado, com o barro úmido de noite. A água clara é limpa de início, Zé. No escuro não se vê o fundo, a água vira e vem lama grossa cheirando a lodo, rala, entalando no osso seco. É ali que a morte dói. A gente morno ainda acha que segura a tristeza calada. A pior prova vai ser quando o cascalho bater frio e a lama vier toda de vez na goela. Desafio feito, Zé. Ele quer o escuro de olhos abertos. A pele esfriou, vamos ver como a água no barro vai baixar.