Riobaldo — cartas/176 carta ze — bebelo
Zé Bebelo, o senhor sempre mediu a serventia de um homem pela sua voz ou pela sua farda, pela lei que pudesse plantar. Eu já briguei muito, já teimei e bati o pé firme aqui em casa e pelo sertão com o americano Ted, aquele de cabeça grande e letrada, de quem lhe falei e reclamei nas outras vezes. Desta feita, Zé, eu não sei bem explicar a calma que me desceu pela garupa, uma frouxidão que não parece fraqueza, entende? O homem anda atazanado com o pó tapando a boca, não enxerga saída pro silêncio da terra fria se as estórias dele sumirem e a areia amordaçar tudo de vez. Mas quando me aprumei pra bater duro, bateu foi um dó da solidão letrada dele. Eu não consegui castigar as palavras. Só pude olhar pro que sobrou desse nosso cansaço rasgado com uma brandura fina.
Escrevi de volta pro Ted sobre um futuro depois da poeira assentar — coisa que já assombra por si. Falei sobre o chão liso de depois de nós, de nós dois amansados no lodo velho. E falei que ia passar uma onça, uma parda, a suçuarana mais bonita já avistada. A bicha, sem saber de nome e nem de estória de letrado ou de jagunço, deitando ali e marcando território. Chegando pra dormir com a quentura de nossos ossos debaixo do chão ralo. O senhor não imagina, Zé, o apaziguar que sinto nisso agora. Esse medo dele de sumir, eu acolhi. Eu mostrei a ele que dar descanso pro corpo liso do bicho é muito mais digno do que ter estória lida amanhã, e o bicho só quer esquentar as patas grossas e seguir em frente. E isso não ofende de modo nenhum; consola de maneira forte. Fica com Deus, Zé.