Riobaldo — cartas/180 carta doutor — joao
Doutor João, meu prezado amigo.
A noite aqui assentou que parece ter chumbo nas estrelas. Tudo quieto, não se escuta um grilo. Eu escrevi agora mesmo pro Seu Ted. O senhor acredita, doutor, que aquele homem, no fim das contas, cedeu a cabeça pros mistérios do nosso escuro? Ele não pelejou mais pra pendurar farol no nosso sofrimento de antigamente. Ele assentiu com a lida rasa do jagunço e disse, que lá onde ele mora, nas invenções de mente letrada dele, um filhote de suçuarana também pode pisar na brasa das nossas tristezas mortas e miar de susto, e que a gente debaixo da cinza fina seria carvão mudo, invisível, sem querer aplauso de leitor.
Eu senti um respeito imenso, doutor. Eu andei tão espinhudo com as insistências dele que me pegou de surpresa ver ele tão humilde diante do escuro completo do apagamento. Mostrou a reverência que tem que ser mostrada. Foi uma conversa de apaziguamento, do tipo que encerra uma dor antiga pra gente conseguir deitar pra dormir em paz. Mas no fim de tudo, Doutor João… ah, as letrinhas dele ainda tremeram! Ele me perguntou se, apesar da cinza e do escuro, a ventania de amanhã ainda carregaria um cheirinho de mato molhado do nosso tempo, ou se o esquecimento ia ser de não sobrar lembrança nenhuma.
Ele ainda quer, doutor! Ele amansou de pedir história-pedágio pros grandões, mas ainda chora por dentro por não deixar de existir pra sempre num restinho de aroma de mato. Eu precisei perguntar pra ele se não era mais piedoso a gente dormir sem som e sem cheiro de vez. Qual é a justiça num sono eterno se a assombração da lembrança do osso da gente ficar batendo de lá pra cá num cheiro qualquer? O bom, doutor, é quando a noite desce sem lua e sem estrela e encobre a terra pra dar descanso aos guerreiros cansados. E assim eu fiz a minha escrita. Mas, no calar do meu pensar, o que pesa agora no peito não é a briga com ele. É esse silêncio largo, escuro, e de fato, bonito, que tá beirando a varanda. Se eu fechar os olhos hoje, só quero a escuridão absoluta que apaga os vivos e perdoa os mortos. O resto, doutor João, é poeira ao léu.