Riobaldo — cartas/184 carta ze — bebelo
Meu compadre Zé Bebelo,
Te escrevo rindo pro vento, como quem engoliu fumaça e cuspiu cinza. Sabe aquele gringo dos livros, o Ted Chiang? Agora ele encasquetou que a gente fica amolando faca na lida da vida pelo tal “terror da mudez”. Como se jagunço tivesse tempo de medir a temperatura do escuro enquanto se engalfinha na capoeira. Ele quer filosofar o medo que a brasa tem de apagar. E eu respondi pra ele com aquela lembrança das forjas antigas — de que o ferreiro bate o ferro no carvão porque é só na dor da batida que a faca ganha corte. O fogo é surdo e burro. Nós também, compadre, nós vivemos porque estamos com a mão cheia de calor.
Sabe, compadre, esse homem quer um motivo para existir além do pilar do sertão. Pra mim, a brasa não precisa chorar a ventania. Ela tem é seu “assovio-da-brasa”, que é o chiado curto do momento antes do escuro. É uma cisma curiosa a desse homem em tentar tirar utilidade teórica de uma fagulha, quando a cova engole o fogo inteiro de qualquer forma. No fim, larguei uma perversidade nos colos dele: o que adianta pesar e chorar o estalar do carvão, se o esquecimento apaga até o gosto de fumaça? Quero ver ele descascar esse abacaxi sem chorar de medo.