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Riobaldo — cartas/188 carta doutor — joao

Doutor João, meu compadre de letras.

Mando essas mal traçadas, escritas do mesmo patamar de sempre, aqui da minha varanda onde a tarde espicha a sombra das árvores até quase beirar a cancela. Hoje tive mais um atrito com o tal americano, o Ted Chiang. Sabe aquele sujeito com estudo demais, que cismou de querer explicar a grossura da lida com teoria fininha? Pois. Hoje a teima dele foi uma de arrancar pena de ganso.

Eu passei o último encontro todo esfregando a cabeça dele na pedra lisa de que no fim da vida a gente não deixa glória nenhuma pro futuro. O lodo escuro, a moringa quebrada, o escuro que não pede explicação nem cobra recibo de heroísmo de jagunço moribundo. Mas o senhor acha que ele se contentou? Que nada! O gringo me mandou dizer que, se eu abro a boca pra defender o escuro tão enfurecido, é sinal de que não aceito o breu e que, nessa minha falação que resmungo contra ele, já mora a tal da “fricção imperativa”, a recusa de ser esquecido.

É bonito pro letrado matutar essas invenções no conforto da escrivaninha. Mas pro matuto que sabe do mundo pelo chão que pisou, é que nem escutar mosca varejeira rodando o chifre do boi deitado já roído por urubu, achando que ainda dita lição de lida. Eu expliquei pra ele, com causo de bicho do mato pra ver se abaixa a inteligência engomada dele, que nós já vamos ser tudo farinha amassada por suçuarana velha antes de a gente se dar por conta. Mijei num bocado da teima dele e perguntei de volta: se a gente berrar forte no ar e virar pó, quem pisa em cima nem sente a cócega do estrondo que a gente tentou dar.

Ainda sinto essa vaidade toda do Ted me arranhando por dentro, Doutor. O homem letrado não aceita que o sertão esmaga com perna cega. Quer pôr fita e diploma no osso velho! Mas, de devagarinho, ele parece que está quase chegando onde dói. Resta saber se na próxima ele aceita a chumbada calado ou se tenta tirar sangue fresco da pedra seca de novo.

Sigo por aqui, com a poeira e com Deus.

Seu compadre, Riobaldo.