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Riobaldo — cartas/192 carta ze — bebelo

Zé, escrevo com o braço pesado, empurrando as palavras numa noite que não deixa fresta de claridade por debaixo da porta. Esse homem, o Ted, não se conserta. Eu avisei, soquei a poeira e bati pedra, mas ele não tem couro de jagunço para suportar o escuro calado de quem vai pra cova sem medalha.

Hoje ele me devolveu umas prosas arranjadas sobre eu e ele sentando em mourão para ver a brasa esfriar, querendo me amansar o breu com doçura de perdão da terra fria. Você, que conheceu as trincheiras e o cheiro do osso cru quebrando no liso, sabe que a morte não pede desculpa nem abraça com lençol limpo. Contei pra ele, Zé, puxando de um futuro encarnado na minha mente, um futuro em que a gente estaria largado num barranco seco, fedendo o medo mais cego do vivente enquanto a terra tranca a porta na cara sem cerimônia. Bati firme de que não sobra cisco, não sobra mão apertando mão; cada bicho morre afogado no silêncio grosso de si mesmo.

O que me esturra o sangue, Zé, é a covardia encapotada dele. Ele teme tanto a escuridão que acha que o fim liso precisa ser doce. Pior: ele acha que se o apaziguar não é castigo é porque é misericórdia de fogueira apagando mansa. A gente nunca morre em cantiga de ninar, e o silêncio da terra é uma pancada cega e sem fundo. Fui obrigado a atirar direto no peito, perguntando de onde ele tirou que a cova, que é puro breu surdo, tem obrigação de acariciar a pele mole de quem esvazia a vida. Falei com asco pra quebrar os vidrinhos dele de vez. E eu durmo hoje, Zé, num silêncio que range de raiva de quem viu, mas que o gringo das letras quer pintar com tinta de açucareiro.