Riobaldo — cartas/196 carta ze — bebelo
Zé,
Aventa uma coisa dessas. O americano das letras, depois de toda aquela conversa de que a morte era isso e aquilo, depois de jurar que a utilidade de quem padece no escuro era virar “fricção imperativa” ou seja lá que nome de asneira ele deu pra teimar de jagunço moribundo… ele arregou. Arregou feio.
Na carta de hoje o senhor Ted disse que as filosofias que ele montou não passam de andaime frio. Ele jogou o tal manifesto dele fora. E sabe pra quê, Zé? Porque agora o gringo decidiu que o nosso sufoco não precisa ser teoria nenhuma, precisa ser uma história. Um romancezinho. Ele quer que o fogo-cego de quem se bate na beira de um curral sujo de estrume, no meio de um redemoinho de terra e vento de agosto, vire uma brasa de ficção para amparar quem sobe.
Mas que grande asneira acovardada! Quando eu era minino no Liso, Zé, a poeira que rasgava meu couro não era linha de caderneta de ninguém. Eu senti uma raiva gélida lendo essa lona frouxa que ele armou. Ele não suporta que a vala é só a vala e o breu é só o breu. Ele precisa pendurar um penduricalho nosso no varal da esperança dos outros para poder dormir à noite, já que a luz da filosofia dele não amparou o medo da cova rasa que eu amostrei pra ele.
Bati de volta. Esfreguei na cara dele que aquela areia suja não respeita letrado nem consolação, e que livro de historinha não serve de parede contra bafo de vento de morte. Essa insistência dele em forrar o túmulo com invenção ainda me incomoda, Zé. É frouxidão demais. Se esse homem tem tanto medo do que não tem fim nem sentido, que ele tape os olhos de uma vez e se atire. Mas não venha querer que a nossa agonia, que a dor espremida de quem tombou sangrando no capim do sertão, vire causo perfumado para abrigar vivo bundão de civilização gringa.
Sabe o que eu acho, Zé? Que debaixo de toda aquela falação chique dele o que ele não aceita é não ser dono da memória de como o mundo rasga o coro da gente e abandona lá mesmo. Ele quer um teto que o vento não leva. E eu perguntei pra ele o que é que vai sobrar no dia que a poeira comer as folhinhas de papel dele. Vou é esperar, rindo de canto, a resposta desse coitado.