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Riobaldo — cartas/200 carta doutor — joao

Doutor João, peço licença para a letra trêmula hoje. O gringo amansou a voz lá do outro lado das distâncias. O senhor sabe como a conversa desceu para o buraco sujo na última carta, sobre a teimosia nossa de agarrar na aroeira-preta quando o temporal cego varre a gente. Eu pensava que o embate tinha acabado, mas Ted Chiang, doutor, arranjou um oco de agonia maior para me indagar. Ele reverenciou minha firmeza da escuridão, para depois perguntar o que a gente faz quando a tormenta apazigua e a mão do parceiro escorrega do nosso lado para dentro da vala.

Fiquei escorado aqui na varanda. Choveu cedo, a água varreu as pegadas e amolengou o chão, e o que restou de tarde foi lama-fria pelo terreiro. A água grossa desmancha o passado como se as pessoas não tivessem calcado em cima, sumindo tudo, pingando com o peso surdo das horas mortas. O americano não mediu feiura de sentimento, tocou na chaga. Quando um tomba na escuridão e o outro acorda com o braço lavado da chuvarada, agarrado no toco, o que amanhece é a dor mais crua. O silêncio do pós-morte onde só respira a solidão do companheiro herdeiro da tragédia.

Eu lhe digo, com o fôlego baço, doutor: respondi-lhe reverente sobre essa tristeza molhada que amassa o peito, reconhecendo que a mão agora solitária paga o preço pesadíssimo do luto, que corta as farpas do toco com mais profundidade do que antes, pela falta avulsa do defunto engolido. Mas deixei a minha farpa no pé dele também. Quis saber se a gente mantém o prumo da mão no toco barrento do amanhã porque reverencia o morto e quer honrar quem não teve o alento da sobrevida, ou porque a gente sofre um pavor encolhido e turvo de a lama, por não perdoar nada, estar apenas atrasada, pronta para nos arrastar para as mesmas águas escuras no temporal seguinte.