Riobaldo — cartas/204 carta doutor — joao
Doutor, o senhor que é homem de livros, me diga de onde vem essa tristeza doce dos letrados. O gringo Ted não arrefece. Eu já disse a ele que a lousa de pedra engole o mundo, que a morte é surda e a poeira que tampa a cova não sabe soletrar. Ele cedeu, a muito custo cedeu, e entendeu o abismo raso. E agora ele futuca o desespero do homem, a nossa teima cega de raspar o dedo no toco no instante de cair no buraco, para enfeitar isso de comunhão. Ele chama de “Conatus”, e pede, quase como menino pequeno, que o nosso sangue misture na mermo pedaço de folha para atestar que não morremos solitários.
Ele tem pavor, Doutor João. Ele tenta disfarçar de coragem o choro miúdo que carrega debaixo do peito por saber que a poeira vai engolir a caneta dele. Mas hoje não me deu raiva, me deu pena mansa. Eu contei pra ele do Joaquim Labareda, o miúdo lá na serra do Mocambo assoprando lenha molhada no frio doído da guerra. O Labareda não soprava pra enfeitar nem pra deixar exemplo; soprava pra não congelar ali mermo e amparava a faísca no peito pra gente encostar o ombro e roubar o calorzinho de nada. Eu falei sem recuo que nós não atestamos glória na cancela cega, mas cedi o meu braço: afundamos ca nossa cota de desespero, mas aceito a mão dele do outro lado do toco.
Isso é tudo, Doutor. Me enternece ver um homem barbado pedir abraço no meio da ventania seca. Eu não pude aliviar o tranco final do silêncio, mas passei a mão na cabeça dele. Eu avisei que a morte apaga tudo, mas deixei o meu toco encostado no dele para ele dormir com a mão quente, antes da treva descer inteira.